24 de jul de 2010

[Conto] O Término


Eu a conheci por acaso. Um dia ela simplesmente me adicionou no MSN e puxou assunto. Não me pergunte como ela o descobriu, porque nem eu que era o mais interessado fiquei sabendo. Nas próprias palavras dela tempos depois me disse que tinha sido o destino, mas não tenho tanta certeza disso. Eu boçal e antipático forcei a simpatia com aquela estranha que tentava me convencer que os clássicos eram melhores que os filmes de terror tosco que eu tanto gostava.

Achei que seria apenas mais uma dessas conversas que se tem com alguém que te adiciona e depois, a única outra vez que troca algumas palavras é quando ela vem perguntar quem é você, e você faz de tudo pra ser simpático e tentar explicar quem é. Bem, eu não tenho essa capacidade de simpatia, simplesmente digo que ela que me adicionou. Porque qual o propósito de você adicionar alguém se você depois não vai mais lembrar quem ela é?

Mas com ela foi diferente, durante as semanas seguintes ela vinha diariamente puxar assunto. Eu até tentei evitar o contato entrando offline, mas mesmo eu sendo boçal e antipático tenho que admitir que ela foi me cativando e o tempo que eu passava offline pra fugir dela foi diminuindo.

A cada conversa ela me mostrava uma faceta desconhecida e a cada uma ia me conquistando mais e mais. Ela me cativou tanto que me conquistou por completo e eu me apaixonei. Foi aí que começou minha desgraça.

Aviso logo que não acontecerá nenhuma tragédia, isso, dependendo do seu ponto de vista. Pra mim o que aconteceu e que levou ao fim do nosso relacionamento foi uma tragédia. Pra ela foi uma infantilidade da minha parte, mas nada me fará aceitar aquilo.

Ah! Esqueci de comentar que ela morava a 600.000 metros de distância ou pra quem não gosta de números grandes, como ela, 2 estados acima do meu. Admito que a distância nunca foi um problema muito grande, porque nos falávamos quase todos os dias e quando nos víamos ao vivo o saber que logo íamos nos separar fazia com que aproveitássemos cada segundo juntos.

Passamos três anos nisso e nem de longe foi o principal motivo de tudo ter acabado. Está certo também que já vínhamos tendo nossos problemas, mas também não foram eles que causaram a separação. E vou provar como eu não estou sendo injusto com ela.

Como já disse ela é uma pessoa encantadora. Mas da mesma forma que ela era encantadora comigo ela era encantadora pras outras pessoas com quem ela conversava. Não digo com isso que ela era infiel para comigo. Digo apenas que conversar com ela era o mesmo que se tornar um grande fã dela ou na pior das hipóteses se apaixonar perdidamente por ela, como foi o meu caso.

Mesmo tendo vários defeitos, dos quais eu já indiquei alguns aqui, nunca criei caso com isso. A conheci assim e me apaixonei por ela já sabendo disso, então nunca tentei mudar isso nela. E olhe que nunca foi fácil porque de tempos em tempos eu tinha que segurar a barra dela triste e chorando pelos cantos, porque um “amigo” dela não queria ser apenas amigo e isso acabava com a amizade deles. Não sou santo, intimamente achava era bom pra ela aprender que ser encantadoramente cativante não é uma dádiva e sim um infortúnio. Mas eu era um bom namorado e guardava esses sentimentos só para mim.

Ainda havia os problemas inerentes a se namorar uma garota, como por exemplo, esperar por no mínimo duas horas ela se arrumar, nem que seja pra ir comprar pão na padaria, coisa que você facilmente faz de bermuda e chinelo, sendo a camiseta opcional. TPM e todo a crise mundial que parece se instalar quando a menstruação resolve dar as caras.

Sem falar em responder perguntas simples como, por exemplo, se ela esta gorda ou feia. Porque essas perguntas são típicas pegadinhas femininas, uma vez que não existe resposta apropriada. Responder “sim” é claramente uma insensatez já que elas nunca vão querer ouvir isso. Mas responder “não” também gerará uma fúria insana e descontrole motor e oral, pois um “não” rápido demais indicará uma resposta automática, e um “não” demorado demais indicará que você parou pra pensar na questão, e se você pensou o “sim” passou pela sua cabeça. Então a única opção é encontrar o tempo exato pra se dizer “não”, porém até hoje não se tem conhecimento de nenhum homem que tenha conseguido calcular esse tempo exato. Acredito até que ele deveria fazer parte daquelas hipóteses matemáticas que existe há séculos e ninguém consegue provar. Meu chute é 1.256 segundos.

Mas esses “problemas” femininos não são considerados verdadeiros problemas são apenas as letras miúdas que você sabe que estão lá, mas não liga de olhar quando assina um contrato.

Poderia gastar várias outras linhas indicando problemas dela, assim como ela poderia facilmente escrever um livro com os meus, mas vamos nos ater a esses. Apesar de tudo isso sempre a amei. Sim, eu a amava. Mesmo isso sendo algo estranho de se dizer hoje em dia. E sempre a respeitei, sempre fui compreensivo e generoso. Sempre abri a porta do carro, até café na cama levei. Mas apesar de tudo isso ela me apunhalou nas costas e aquilo eu não pude perdoar.

Eu seria capaz de perdoar tudo, até ela ter me traído com algum daqueles amigos que queriam ser mais do que amigos dela, mas isso eu não pude, nem posso perdoar. Mas uma coisa eu não posso negar. Ela sempre me deu dicas. Assim como eu já dei dicas do que aconteceu pra vocês também.

Sempre que pedia pra ela calcular alguma coisa ela dizia que era de Humanas e que era melhor eu calcular já que sou de Exatas. Cansei de contas as vezes em que ela recebeu o troco errado. Cansei de somar as contas dela. Sempre achei que ela fosse desligada, até mesmo burrinha, mas não, a coisa era pior, muito pior, ela não sabia contar. E eu podia aceitar tudo, menos que a mulher da minha vida não soubesse contar.

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