27 de jun de 2009

[Literatura/Nostalgia] Conte outra vez... mas agora conte a original

Era uma vez.
Outra história assim vai começar
E todos vocês
Neste mundo encantado vão sonhar
É só escutar com atenção e viajar na asa da imaginação
Que a alegria vai tomar seu coração...


Esse foi, com certeza, o versinho que eu mais ouvi na minha vida.

Quando pequeno eu tinha uma coleção de livros de fábulas que vinham com uma fita K7 e era apresentada pela Xuxa, a coleção “Conte Outra Vez”. Nunca fui muito fã da Xuxa, mas agradeço por ela ter feito a apresentação das fitas que eu tanto gostava. Ou não, já que ela só fazia a introdução...

Bem, era quase um ritual. Antes de dormir eu pegava meu toca fitas gradiente, colocava uma das 12 fitas e ficava compenetrado ouvindo as vozes de José Rubens Chachá, Rosi Campos e outros contando aquelas fábulas maravilhosas. Ouvi até a exaustão.

Depois que cresci um pouco acabei ouvindo menos e não sei como, as fitas que ficavam numa caixa de papelão embaixo da minha cama acabaram sendo atacadas por formigas e ficaram estragando. Ou jogaram fora por estarem cheias de formigas, não lembro bem o que aconteceu, só sei que as fitas foram pro lixo. Sobraram os livros, mas eles não tinham a mesma graça sem elas. Acabou que esses, depois que eu fiquei maior, foram dadas pra filha dum casal amigo dos meus pais que era pequena na época. Uma pena porque gostava bastante deles, mas ao menos ficaram as boas lembranças.

Acabei me lembrando disso em parte por ter feito um post sobre os quadrinhos Fábulas, mas, principalmente, por ter ido pegar minha dose semanal de Nerdcast ontem.

Quando entrei no site do Jovem Nerd acabei me lembrando que foi por essa época, há uns 2 anos atrás, que tive meu primeiro contato om o podcast deles. Era um sobre São João (Nerdcast 67 - Salsichão, Pau de Sebo e Muita Mariola), bastante divertido por sinal, mas o que chamou minha atenção mesmo foi o de número 66 (Nerdcast 66 - Era uma vez um Nerdcast), o segundo que eu ouvi. Nele a trupe bate um papo interessante sobre as fábulas e suas origens, tanto de onde vieram como as suas versões iniciais.

Lembrando disso, lembrei que num especial de Fábulas (Fábulas - 1001 Noites, Editora Pixel), a Branca de Neve vai ser morta por um sultão ao amanhecer e para não morrer acaba contando a cada noite uma nova história, aos moldes de Sheherazade, nas Mil e Um Noites (daí o nome do título da revista). Cada história dessa conta uma versão de uma fábula. O legal é que as versões não são as contadas hoje em dia e versões mais próximas as originais contadas através da tradição oral na Europa Medieval. Não vou contar como são essas versões pra não estragar a surpresa pra quem se interessou, mas são bem legais e essa edição especial da pra ser encontrada fácil em sites de livrarias por um preço relativamente baixo.

Já que não vou contar a versão de Fábula das fábulas, vou contar como seriam as versões originais de alguma das fábulas mais famosas. Vale lembrar que naquela época as histórias, que hoje são considerados contos de fadas, eram na verdade histórias destinadas a adultos e traziam doses fortes de adultério, incesto, canibalismo, exibicionismo, estupro, voyeurismo e mortes hediondas. A “moral da história” que as fábulas hoje em dia têm deve-se em parte a Charles Perrault, que em 1697 publicou Contes de ma Mère l'Oye ("Contos da minha Mãe Gansa"), que continha, ao final de cada história, uma lição de moral.

Cinderela:


É um dos contos mais antigos e com mais versões. Em alguns a fada madrinha é um peixe gigante, em outros uma árvore que nasce sobre o túmulo da mãe da Cinderela. Cinderela, que por sinal na época não tinha esse nome, e sim, Rhodopis.

Nela as irmãs más para conseguir calçar o sapato de cristal, e assim enganar o príncipe, cortam os dedos dos pés. Porém, elas são desmascaradas por pássaros amigos da Cinderela que mostram ao príncipe o sangue escorrendo pelos sapatos. Como vingança os pássaros arrancam os olhos das irmãs malvadas e estas passam o resto de suas vidas cegas e mancas.

Há ainda outra versão em que o pai de Cinderela quer após a morte de sua esposa jura se casar novamente apenas com uma mulher que conseguisse calçar os sapatos da finada. Acontece que Cinderela consegue e o pai cisma que eles tem que se casar. Então Cinderela foge um barco feito dum armário e acaba indo virar escrava das irmãs más e a história segue mais ou menos como a conhecemos.

João e Maria:


João e Maria, que no original alemão se chamavam Hansel e Gretel, já é por si só terrível, com os pais abandonando os filhos na floresta, mas em versões antigas a madrasta que convence o pai a abandoná-los e a bruxa são a mesma pessoa. Em outra versão, ao invés de uma bruxa má temos um casal de demônios que querem estripar o João num cavalete de madeira ao invés de só cozinhá-lo como hoje em dia. Quando o demônio macho dá uma saída a “demônia” pede ajuda a Maria pra preparar João, pra quando o marido voltar poder começar logo. Maria se faz de desentendida e pede pra demônia mostrar como se faz. Nesse meio tempo, enquanto ela está fazendo a demonstração, João e Maria, amarram-na e cortam sua garganta, fugindo em seguida com o dinheiro do casal demoníaco.

Cachinhos Dourados:


Cachinhos Dourados não tem grandes variações. Apenas que em algumas versões ela é comida pelos ursos quando estes a encontram dormindo na cama do pequeno após ter comido da comido e sentado na cadeira deles. Outra versão diz que ela era uma bruxa e que pulou por uma janela quando acordada. Dependendo da versão ela pode ter ou quebrado o pescoço ou sendo presa por vagabundagem.

Bela Adormecida:


Esse daqui tem uma das versões mais barra pesada. Nas suas origens ao invés de uma agulha, o que a faz dormir é uma farpa debaixo da unha. Quando o príncipe “encantado” aparece e a vê dormindo ele ao invés de dar um beijo se aproveita dela, se é que vocês me entendem. Desse estupro ela engravida e dá a luz a gêmeos após nove meses. Na tentativa de mamar as crianças sobem pelo corpo da mãe e acabam chupando a farpa pra fora do dedo, acordando a Bela Adormecida. O príncipe que voltava freqüentemente ainda pra se aproveitar dela, dessa vez tem uma surpresa ao vê-la acordada e resolve se casar com ela. Porém, a rainha era uma ogra e devoraria as crianças se eles voltassem para o reino. Portanto, o príncipe espera até o pai morrer e, finalmente, se tornar rei para levar a Bela, agora acordada. Porém, na primeira viagem que o rei fez a sua mãe ogra come os gêmeos e só não come a nora por que ela conseguiu se esconder. Quando o filho volta e vê o que aconteceu manda matar a mãe.

Branca de Neve:


Nas versões originais a branca de neve não é despertada com um beijo e sim porque um dos carregadores do príncipe que levavam o corpo de Branca de Neves, após este ter pego a garota “morta” para levar para o seu castelo, sem querer deixa o caixão escorregar e o pedaço de maçã envenenado sai da garganta dela. Outras diferenças são em relação a bruxa/madrasta que as vezes podia ser a própria mãe. Nessas versões a bruxa não morre caindo de um penhasco como no filme da Disney e sim é obrigada a passar o resto da vida calçando sapatos de ferro em brasa. Há ainda versões diferentes com relação ao que ela pediu ao caçador. Ao invés de só o coração, nestas versões ela pede vários outros órgão que seriam servidos no jantar.

Pequena Sereia:


A diferença entre versões se encontra basicamente no final. No original ela vê o príncipe se casando com outra mulher e fica desesperada. É lhe oferecido um punhal para que ela possa matar o príncipe e obter assim sua vingança. Porém, ela ao invés disso apenas se joga ao mar e morre transformada em espuma.

Flautista de Hamelin:


A história aqui também só muda no final. Ao invés de devolver as crianças após a cidade ter pagado pelos serviços prestados, ele faz com que elas se afoguem num rio. Há ainda versões que envolvem pedofilia numa caverna escura.

Chapeuzinho Vermelho:


Nas versões mais antigas dessa história, o lobo após matar a vovozinha corta alguns pedaços da velha e tira um pouco de sangue dela deixando-os, num prato e num copo respectivamente e fica no lugar da velha. Quando Chapeuzinho chega ele oferece a carne e o sangue da velha e depois pede pra garota tirar a roupa e depois entrar na cama onde o lobo a devora. Em outras versões Chapeuzinho tira a roupa pra distrair o Lobo e poder fugir ou ainda diz que precisa ir ao banheiro e também foge.

Um comentário:

  1. Olá!
    Muito bom o seu texto. Aliás, gosto muito desse assunto e gostaria de saber quais são as suas fontes. Você poderia me mandar um e-mail a respeito? (aninhafa@hotmail.com)
    Até mais!

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