17 de set de 2012

[Conto] O Ladrão de joias

Este conto é dedicado especialmente à Anna Ingrid que é uma sonhadora e adora pescar, principalmente quando esta dormindo.

Já fazia dois meses que eu estava preso. Havia emagrecido alguns quilos, visto que a comida era odiosa e a consciência de alguém preso injustamente não me deixava dormir a noite. Contrariando a máxima de que cadeia está sempre lotada, na minha cela éramos apenas quatro. O ladrão de galinha, o bêbado que tinha vindo pra passar a noite e já havia três semanas que aqui estava, Jorge e eu. Jorge por sinal já estava na cela quando me prenderam injustamente e era uma pessoa de poucas palavras. Não era muito de puxar assunto e preferia ficar no seu canto envolto nos próprios pensamentos. Certo dia, pela primeira vez nesses dois meses em que me encontrava preso, ele, na hora da refeição, sentou-se ao meu lado e veio puxar assunto. “Cabeludo, por que te prenderam?” perguntou ele usando a alcunha que havia me sido imposta assim que cheguei, devido à vasta cabeleira que ostentava a época. “Fui preso por engano.” comentei, “Nada fiz e provarei isso, nem que me leve toda uma vida.” Respondi mal humorado. “Ninguém que aqui entra, entra por engano. Se aqui está é porque algo cometeu, mesmo que não seja o motivo principal de sua prisão.”, filosofou Jorge. “E tu, o que fizeste pra ser preso?” perguntei aborrecido com o tom de lição de moral a que a conversa tinha se encaminhado, e ouvi uma das histórias mais estranhas que já ouvi na minha vida. De tão absurdo até hoje tenho minhas dúvidas se Jorge se divertia às minhas custas ou se contava a verdade.

“Há alguns anos eu estava muito endividado. Havia perdido meu emprego e as contas só faziam se acumular. Estava em vias de tirar minha vida quando encontrei por acaso um velho conhecido que não via havia bastante tempo. Não éramos exatamente amigos íntimos, mas percebendo que eu enfrentava algum tipo de dificuldade me perguntou pelo que estava passando. Comentei que estava desempregado e que as contas só faziam aumentar. Ele, depois de dar uma checada para ver se ninguém estava nos ouvindo, comentou baixinho que talvez pudesse me ajudar. Fiquei deveras feliz com aquilo e perguntei se era algum tipo de emprego. Ele respondeu misteriosamente. “Tipo um emprego.” Não fiquei de todo feliz com o rumo que as coisas estavam tomando, mas para alguém que estava pensando em tirar a vida por causa das dívidas, qualquer serviço era bem vindo, mesmo que não fosse dos mais honestos. Pedia para que eu o encontrasse no dia seguinte e passou-me um endereço.”.

“No dia seguinte me dirigi até o endereço. Era uma casa antiga com aspecto de abandonada. Procurei pela campainha, mas não encontrei, ia bater palmas e chamar pelo meu amigo quando ouvi uma voz chamando meu nome. Intrigado, olhei na direção de onde ela vinha e reconheci meu amigo entre a vegetação que infestava a lateral da casa. Fui a sua direção e só então percebi que havia um buraco na parede que permitia a entrada na ruína, já que o termo casa parecia impróprio diante das condições do local. Adentrei o local, cumprimentei meu amigo e nos dirigimos para onde os outros estavam. Andamos por alguns corredores mal iluminados até finalmente chegarmos a um ambiente onde cerca de seis indivíduos já lá se encontravam. Assombrei-me com seus aspectos e sem pensar direito disse: “Mas eles são...”, “os melhores que existem no ramo.” completou meu amigo e disse que ficasse quieto e não falasse demais para não irritá-los.”.

“Eram bandidos se você ainda não percebeu.”, interrompeu a narrativa o bêbado, se dirigindo diretamente a mim. Havia alguns instantes que ele havia se sentado próximo e queria se juntar à plateia. “Claro que eram bandidos.“, disse Jorge irritado, “Se fossem escoteiros não estaríamos nos encontrados naquele muquifo tentando não levantar suspeitas. Eram bandidos, e vou ser mais preciso, eram ladrões de joias.”

“Depois de ser apresentado e bem recomendado pelo meu amigo eles me aceitaram no bando e começaram a discutir o plano para o próximo roubo. Iríamos roubar aquela joalheria que fica no centro da cidade. Nunca lembro o nome. Uma que fica em frente aos Correios.”, “Sim, sei qual é se intrometeu o bêbado. É uma...”, “Não importa.”, cortei bruscamente mais uma das intromissões do bêbado que agora já me irritava, ansioso por saber mais sobre a vida de crimes do meu companheiro de cela. “Não importa o nome, apenas continue Jorge.”. “Tudo bem.”, disse Jorge recomeçando o relato.

“Meu amigo então começou a me contar o plano. De acordo com ele teríamos que nos encontrar num local próximo de lá por volta das seis horas da noite. Então uma parte do grupo iria aproveitar o horário de fechamento da loja para roubá-la enquanto o outro seria usado como distração. Uma vez que seria meu primeiro roubo eu iria participar do grupo que alienava as joias como um teste de fogo, enquanto que esse meu amigo, já ancião no grupo por assim dizer, participava do grupo que servia como distração. O plano pareceu muito simplório para mim, mas fui assegurado pelo meu amigo que era um plano perfeito. Que há meses vinham fazendo isso e nem suspeita sobre eles havia sido levantada. Tranquilizei-me um pouco depois dessas palavras e fui para minha casa aproveitar o que podia ser os meus últimos momentos nela caso o roubo não desse certo.”.

“No dia seguinte, no horário combinado, estamos todos no ponto de encontro. Eu e dois dos meus companheiros seguimos para o telhado da loja para de lá entramos no momento de distração criado pelos meus outros quatro colegas. Depois de alguns instantes recebi o sinal do colega de crime que todos aceitavam como chefe para entrarmos. Entramos, fizemos a limpa, como dizem, e saímos. Tudo silenciosamente, com uma habilidade simiesca na entrada e na saída pelo telhado que parecia que eles tinham nascido pra isso. Pegamos as joias e fomos direto para a ruína que nos servia de quartel general para fazer a divisão da botija. Somente no momento em que lá cheguei que me dei conta do que tinha feito. Um misto de culpa e excitação se abateu sobre mim, mas a empolgação com a tarefa cumprida dava um prazer tão grande que a culpa logo se evaporou e só o desejo de sentir novamente a adrenalina do roubo restou no meu corpo. Pouco depois chegou o quarteto que havia servido de distração e pudemos finalmente comemorar o roubo bem sucedido. Comemoramos por um tempo e voltei pra minha casa. No dia seguinte...”, “Calma aí.”, o interrompi dessa vez. “O que seu amigo e os outros fizeram pra distrair a atenção dos funcionários da loja”, “Até hoje não sei exatamente.” respondeu Jorge. “Meu amigo sempre se esquivava fazendo mistério dizendo, “Macacada, o segredo é fazer macacada que eles se distraem e não percebem o roubo.”. Sempre aceitei aquilo como verdade, mesmo que parecesse absurdo e infantil, mas parecia bem plausível para mim a época.”.

“Durante algum tempo continuamos realizando roubos bem sucedidos. Cada vez mais minha conta engordava e cada vez mais eu queria mais da adrenalina do roubo. Com o tempo, a experiência foi me baixando a guarda e num desses roubos acabei por acionar o alarme da loja. Meus companheiros, com suas habilidades natas, num instante se escafederam do local, enquanto que eu não consegui fugir a tempo e acabei preso. Fui levado à delegacia e, após ser descoberta minha identidade de ladrão de joias, fui acusado de responsável pela onda de roubos de que vinha sendo assolada a cidade nos últimos tempos, e torturado a fim de delatar meus companheiros de crime. Nunca fui muito resistente à dor e acabei, em um momento de fraqueza, os delatando. Fui jogado numa cela e esperei longos dias até meu julgamento. Acabei sendo julgado culpado pelos meus crimes, como eu já esperava, mas o que eu não esperava era ser condenado por perjúrio também. Meu amigo nunca foi encontrado. O miserável conseguiu se esconder e deve continuar no crime hoje em dia. Já os outros cinco foram encontrados, mas foram considerados inocentes, e não acho impossível que continuem roubando. Aqueles trogloditas.”.

A história que parecia ter chegado ao fim, a mim, parecia comum, sem muito de diferente da de tantos outros ladrões de joias que são presos quase que diariamente pelo mundo a fora e acabam sendo os únicos considerados culpados. Seja por azar, por inteligência dos companheiros de crime ou boa influência destes com pessoas importantes. Comentei isso com Jorge e ele dando uma sonora gargalhada que me gelou a alma me disse. “Eram macacos!”, “Todos com exceção do meu amigo e eu eram macacos. Acredita nisso? Eu fazia parte de uma gangue de macacos. Pra que eles queriam joias, dinheiro, não sei, só sei que era isso que fazíamos. Mas o que me indigna mais hoje em dia não é nem o fato de ter sido preso, nem de ter sido considerado o único culpado. É que o chefe não era meu amigo, nem eu e sim um dos macacos!”. Depois de dar uma risada sem graça Jorge voltou pra seu canto e pra sua angustia particular. Já eu até hoje continuo aqui tentando provar minha inocência, porque nada fiz e aqui estou injustamente.

2 de set de 2012

[Cinema/Nostalgia] A Ilha do Dr. Constrangimento


Há algum tempo estava eu dando uma olhada no excelente blog “Gato Branco em Fuligem de Carvão” quando vi uma postagem sobre o livro “A Ilha do Dr. Moreau”, e vi que a editora Alfaguara tinha lançado uma edição nova. Sempre tive vontade de ler H.G. Wells, só nunca tive um livro dele em mãos pra ler. O que conheço das principais obras do autor (A Máquina do Tempo, 1985A Ilha do Dr. Moreau, 1896; O Homem Invisível, 1897  e  A Guerra dos Mundo, 1898) é devido as várias adaptações cinematográficas já feitas. O filme A Ilha do Dr. Moreau (1996), pelo que eu me lembro, vivia passando no SBT na Tela de Sucessos e eu vivia vendo. Nunca via desde o começo, é bem verdade, mas sempre via de onde pegava. O filme, apesar de não ser uma obra-prima sempre me agradou. Mas o que me chamou a atenção quando li o post não foi o desejo de ler o livro ou de rever o filme, e sim, a memória de um momento bem constrangedor pelo qual passei. 

Quando menor sempre ia com meu pai alugar filmes na locadora até o dia que o videocassete quebrou e ele assinou a NET. Como havia, entre várias coisas, filmes na programação ele não se deu o trabalho de comprar outro. E foi assim durante a metade final da década de 90 até que em 2000, eu acho, no meu aniversário de 15 anos eu pedi um videocassete de aniversário pra poder ver as fitas gravadas que eu tinha em casa. 

Um ano depois, meu aniversário caiu num final de semana e como era comum nessa época fomos passar o final de semana na casa de praia de um amigo dos meus pais. Normalmente depois de almoçar eu ficava vendo televisão no sofá até cochilar. Nesse dia, sou acordado pelo amigo do meu pai dizendo que tinha sabido que era meu aniversário e que tinha um presente pra mim. Ele então em entrega uma embrulho bem grande com 4 fitas VHS dentro. Claramente ele tinha descoberto meu aniversário 15 minutos antes e pegou essas fitas que estavam encalhadas num canto pra me dar. Mas de qualquer forma eu gostei do presente. Ainda estava empolgado com o videocassete e os filmes que ele tinha me dado (Face a Face com o Inimigo, Beleza Roubada, O Último MatadorA Ilha do Dr. Moreau) pareciam bons.


Ele me entregou o embrulho e voltou pra beber com meu pai, enquanto que eu ficava “alisando” meus novos filmes. Li a sinopse de cada um, admirei a capa e programei mentalmente a sequência em que eu iria vê-los. Como eu sabia que eram usados tirei da caixa pra ver o estado deles e foi aí que começou o momento constrangedor. 

Quando tirei o filme do H.G. Wells da caixa vi que não era ele quem estava lá e sim um pornô com um título escrito a mão “Minha mulher alguma coisa que eu não lembro mais”. Por um momento pensei: “Que massa me dei bem!”. Queria ver “A Ilha do Dr. Moreau”, mas um pornô, pra um garoto de 15/16 anos era muito mais útil. Um instante depois veio outro pensamento: “E se isso for um filme caseiro deles por isso tava escondido na fita do Dr. Moreau? Ele vai perceber que sumiu e vai saber que está comigo”. Sei que durante uns minutos fiquei ponderando o que fazer com a fita. Acabou que venceu a ideia que eu iria vê-lo em ação com a esposa e resolvi devolver. Assim, quando ele passou na sala novamente cheguei para o amigo do meu pai e disse que achava que a fita do Dr. Moreau estava errada. Ele olhou, viu a fita, ficou super constrangido, assim como eu, e disse que ia trocar por outra, o que de fato ele fez, já ainda hoje tenho o “O Cão de Guarda” ao invés de “A Ilha do Dr. Moreau” aka “Minha mulher alguma coisa que eu não lembro mais”.


Quando cheguei em casa parei pra pensar no assunto e era óbvio que ele estava me dando a fita de propósito. Na minha ingenuidade na hora não percebi. Só sei que todos os outros filmes eu assisti umas 10 vezes, já o Cão de Guarda eu nunca vi de raiva.