6 de mai de 2018

[Literatura] As muitas histórias de David Grann

Lá no já longínquo ano de 2009, meu pai era assinante da Revista Época. Sempre que a revista chegava, uma das primeiras seções que eu olhava era a que falava sobre literatura. Sempre tinha a lista dos livros mais vendidos da semana e uma reportagem sobre um lançamento. Em uma edição da revista semanal daquele ano, a reportagem dessa seção mostrava um livro com um grande Z formado por vegetação na capa, e com o subtítulo "A Cidade Perdida". Só a imagem já foi suficiente para despertar meu interesse e alimentar meu desejo de adquiri-lo. Esse desejo só aumentou quando li a sinopse que falava sobre um certo coronel do exército britânico, que teria vindo ao Brasil atrás de uma cidade perdida no meio da floresta amazônica, no melhor estilo Indiana Jones. Infelizmente na época eu não o achei para comprar em livrarias e acabei, com o tempo, esquecendo o título e o autor. Lembrava que o livro existia, mas não sabia mais como pesquisá-lo.


Sete anos depois, em 2016, dando uma olhada na Amazon, me deparo novamente com aquele Z enorme na capa. Toda a lembrança e a vontade de conhecer a história do coronel Percy Fawcett voltam a minha mente de imediato e, sem pensar duas vezes, coloco no carrinho e realizo a compra. Assim que o livro chega, passo ele na frente de toda a minha pilha de leitura e começo a me embrenhar no meio da floresta amazônica em busca do Eldorado brasileiro. E que aventura!

A escrita de David Grann, o autor do livro e jornalista da revista The New Yorker, é ágil e muito gostosa de ler. Além disso, a pesquisa histórica, tanto através de documentos quanto a partir de entrevistas com parentes de Fawcett e com as tribos indígenas com as quais o coronel teve contato durante sua aventura, consegue criar uma narrativa tão fluida, que quase é possível sentir o ar carregado de umidade da floresta amazônica. Se não bastasse a escrita incrível, a história do coronel Fawcett e sua obsessão por encontrar Z é sensacional. Antes de ler o livro eu já tinha ouvido falar dele e de como ele havia desaparecido durante suas explorações, porém, nunca tinha imaginado o quão fascinante ele e a sua aventura tinham sido.


Outro dia me peguei pensando que eu já vivi mais tempo no século XXI do que no século XX. Apesar disso, talvez por ter nascido num mundo analógico ao invés do mundo digital que temos hoje em dia, a sensação de pertencimento ao século XX e proximidade dele ainda são grandes. Pensamento diametralmente oposto talvez se aplique com relação ao período em que se passa a história do coronel Fawcett. O ano de 1925 me parece muito mais distante do que os menos de 90 anos que realmente tem. Muito talvez porque naquela época o mundo ainda era um lugar cheio de mistérios e inexplorado, diferente do mundo já bem conhecido e sem graça em que nasci. 

Fascinado pela aventura, eu li o livro em duas sentadas. Acompanhei o coronel Fawcett, seu filho Jack e o amigo dele Raleigh Rimmell se embrenhando pela mata, passando fome, encontrando tribos indígenas, e acompanhei o fim trágico e enigmático do coronel. Por sinal, o desaparecimento dele sempre foi o que mais me fascinou na história, e, apesar de não dar uma solução definitiva, o livro lida bem e apresenta uma hipótese interessante. Com relação a cidade, é interessante o ponto de vista apresentado pelo livro, e mais interessante ainda saber que no fim Fawcett talvez estivesse certo na sua obsessão.

A história do coronel Fawcett, tendo o livro de David Grann como referência, foi adaptada para o cinema (The Lost City of Z, 2016) e o filme é muito bem feito. Toma algumas liberdades criativas, mas no geral está tudo lá.


Há uns 3 meses, quase 2 anos depois de ter lido Z, eu estava olhando meus e-mails e abro um e-mail de propaganda da Saraiva com um livro onde a capa mostra dois índios americanos em um Ford T e atrás um poço de petróleo lançando óleo vermelho no ar com o título "Assassinos da Lua das Flores". Já achei capa curiosa, mas quando li a sinopse pensei "UAU! Parece foda!". Ela dizia o seguinte:
Nos Estados Unidos dos anos 1920, as pessoas com maior renda per capita do mundo eram membros da tribo indígena Osage, de Oklahoma. Depois da descoberta de petróleo sob o solo de sua reserva, esses improváveis milionários andavam em carros de luxo dirigidos por motoristas, viviam em mansões e mandavam seus filhos para estudar na Europa. Então, um a um, os Osage começaram a ser mortos.
Já tinha ficado interessado, mas quando vi nome do autor soube que tinha que comprar. David Grann, o mesmo autor de Z, a cidade perdida. Comprei o livro e descobri que ele tinha outro livro publicado aqui no Brasil, "O Diabo & Sherlock Holmes". Não pensei duas vezes e comprei os dois.


"O Diabo & Sherlock Holmes" trás, como o próprio subtítulo informa, histórias reais de assassinato, loucura e obsessão. São ao todo 12 reportagens que Grann escreve para diversas revistas reunidas em um único livro. Apesar de ter algumas histórias melhores do que outras o livro é excelente no geral. Destaco o capítulo "Circunstâncias Misteriosas", onde ele narra a misteriosa morte do maior especialista em Sherlock Holmes do mundo, e o sensacional "O Camaleão", sobre a vida de Frédéric Bourdin, um impostor que acaba se metendo numa enrascada quando tenta aplicar um dos seus golpes. Como as histórias são reportagens, a grande maioria pode ser encontrada facilmente nos sites das revistas onde foram publicadas (The New Yorker, The Atlantic, New York Times Magazine e The New Republic).

Já "Assassinos da Lua das Flores" relata a trágica histórica da tribo dos Osage, que após ser "jogada" de um lado pro outro pelo governo americano na época das colonizações do Oeste americano, acaba sendo alocada num pedaço de terra rochoso e infértil no meio do Oklahoma, mas que por acaso do destino estava sobre uma grande reserva de petróleo. Por causa do petróleo os índios se tornam a população mais rica da época à época. Porém, a riqueza não vem sem preço. Misteriosamente os membros da tribo começam a morrer de forma suspeita.

Assim como em Z, Grann apresenta a história com muito embasamento histórico, traçando todos os acontecimentos e tentando solucionar o mistério envolvido com as mortes. Gostei de ler sobre essa parte da história americana que eu não conhecia, além de aprender um pouco sobre a criação do FBI. Além disso, a mesma sensação com relação ao tempo que tive em Z se repete aqui. As mortes acontecem mais ou menos no mesmo período, menos de 100 anos atrás, mas o mundo parece tão diferente do atual e até do de 30 anos atrás quando nasci, que parece que aconteceram a muito mais tempo.

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