23 de ago de 2012

[Literatura] Almost Blue ou a fina arte de pagar pouco por livro bom



 

Sempre que vou ao supermercado Hiper Bompreço aqui de Recife dou uma olhada na seção de livros de lá. Não olho os livros novos com preço de livraria, mas sim os da “xepa”, os que ficam empilhados num canto, com preços praticamente simbólicos. É sempre empolgante garimpá-los em busca de alguma coisa que me chame a atenção e peça pra ser levada, como já aconteceu com o excelente “A Conspiração de Papel” do escritor estadunidense David Liss. Dez reais por um livro que na livraria custa cinquenta.

Na ultima escavação em busca de um livro interessante me deparei com um de capa verde limão com um iguana azul na capa. A capa por si só já era chamativa, mas junto com o preço - R$ 6,90 - fez com que eu desse uma chance pra sinopse, que por sinal ele não tinha na contracapa. Como o plástico que o envolvia estava rasgado e dava pra abrir a orelha pra ler, dei uma olhada, e o que tinha lá me atraiu. Falava sobre um assassino psicopata, de alcunha Iguana, que ataca estudantes universitários na cidade italiana de Bolonha, Almost Blue – que por sinal é o título do livro – canção composta por Elvis Costello, cantor que eu vinha ouvido bastante graças a trilha sonora de Gilmore Girls que minha namorada gravou pra mim pouco tempo antes, Reptile do Nine Inch Nails e Hell’s Bells do AC/DC, como elementos de composição do cenário.

Desde que li Alta Fidelidade do Nick Hornby acho bastante interessante essa mescla de literatura e música. Mesmo não dando pra extrair som do papel você consegue ouvir a música, e se bem escolhidas, como é o caso desse livro, elas ajudam a dar um ar cinematográfico à leitura. Ou seja, literatura, música e cinema numa lapada só.

Além disso, o livro era publicado pela Conrad, uma editora que eu gosto, principalmente pelos quadrinhos, e que normalmente lança umas coisas meio obscuras, diferentes do habitual e que tem, normalmente, potencial para me agradar. Então não pensei duas vezes, coloquei no carrinho e fui “fazer a feira”. Se fosse ruim eram só sete reais jogados fora.


Umas semanas depois, na casa da minha Guiga, enquanto eu me dava umas férias depois de um concurso de resultado não muito agradável, resolvi fazer Almost Blue furar a fila porque estava curioso sobre a história, e como ele era fininho – 220 páginas – não ia consumir muito tempo. Dito e feito, duas sentadas e um livro que me agradou do começo ao fim, com uma história envolvente e um final decente. O livro já agrada de cara na apresentação de Simon Martini, 25 anos, cego de nascença, e um dos três protagonistas do livro. Em poucas páginas Carlo Lucarelli, o autor, com um toque de genialidade, utilizando apenas o som pra descrever as coisas, coloca você na pele do rapaz e faz, de forma esplendorosa, o leitor se sentir cego por alguns momentos. Foi o trecho onde ele descreve como ele “vê” as cores que fez eu me interessar de vez pelo livro.

“As cores também significam algo pra mim. Têm uma voz, um som, como tudo. Um ruído que as distingue e que consigo reconhecer. E entender. O azul, por exemplo, com esse no meio, é a cor do azeite, das zebras e dos besouros. Vasos, vielas e cavalos são violeta e amarelo é a cor pontiaguda do martelo. E o negro não consigo imaginar, mas sei que é a cor do nada, de ninguém e da lacuna. Mas não é só uma questão de assonância. Existem cores que significam algo pela ideia que contêm. Pelo ruído da ideia que contêm. O verde, por exemplo, com o erre que arranha no meio e coça e esfola a pele, é a cor de uma coisa que queima, como o sol. Todas as cores que começam com , ao contrário, são belas. Como o branco ou o bronze. Ou o bege, que é belíssimo. Para mim, por exemplo, uma bela garota, para ser mesmo bela, precisa ter pele branca e cabelos da cor do bronze.”

Além de Simon, temos a inspetora Grazia Negro, e o próprio Iguana como protagonistas principais. Os capítulos do livro giram em torno desses três personagens e da investigação da série de assassinatos de estudantes universitários que vem ocorrendo nos últimos cinco anos na cidade de Bolonha, sendo os capítulos da Grazia narrados como um narrador onipresente e os dos outros dois como narradores personagens. Achei bastante interessante isso, principalmente porque você se sente cego quando nas peles do mocinho e do assassino. Na de Simon pelo óbvio motivo dele ser cego e só perceber as coisas através da audição e do olfato, e na do Iguana pelo fato dele ser completamente doido e o que ele enxerga não fazer o menor sentido, ser quase uma alucinação.

As músicas citadas na orelha e que são os títulos das três partes que compõem o livro dão uma amostra do que espera o leitor. A primeira parte, Almost Blue, traz um começo mais calmo, como um solo de piano, onde os personagens são apresentados e a trama é desenhada. A segunda parte, Reptile, mostra o desenvolver da trama com a investigação começando a acelerar, mas ainda caminhando num ritmo mais lento, um pouco confusa, sem saber quem é o assassino. E a terceira e última parte, Hell’s Bell, como um solo de guitarra alucinado, mostra a ação desenfreada da caçada ao assassino e as consequências que elas trazem pros protagonistas e as pessoas que os cercam. A correspondência do ritmo das músicas de mesmo nome com o ritmo dos capítulos é excelente e dão uma dinâmica cinematográfica muito interessante ao livro.

O livro é excelente, altamente recomendado e já um dos meus preferidos do gênero. Só fico triste que dificilmente lerei outra coisa desse escritor em português. O que é uma pena, já que ele tem bastante coisa escrita e, inclusive, alguns outros com a mesma inspetora como protagonista.  

Um comentário:

  1. ~minha guiga~ <3 <3 <3

    Ah, vc quer só passar de mim na quantidade de livros lidos esse ano. Mas parece ser bem massinha esse e eu vou querer ler sim, quando eu passar nesses concursos.
    Eu gosto dessa dinâmica diferentes de narradores, e eu gosto tmmt de nick hornby, total moldou meu caráter. Espero que publiquem mais livros dele em português - ou que vc se aventure mais em inglês e deixe de preguiça - pq o problema dessas editoras menores é esse mesmo: só falta n sair muitos livros do mesmo cara, qd n vira pipocão.

    ResponderExcluir