27 de jun. de 2009

[Conto] A carteira


- Senhor, a carteira!

Essas coisas só acontecem comigo quando estou atrasado para o serviço. Pior é que eu já cheguei fora do horário ontem. O supervisor vai querer comer meu fígado hoje. Já posso ir me preparando pro esporro. Mas eu tenho que fazer isso. Eu podia apenas ficar com o dinheiro do cara e dane-se a carteira com os documentos dele, mas eu não sou assim.

- Senhor, a carteira!

Ta certo que ele está um pouco distante, mas não é possível que ele não esteja me ouvindo. Será que ele é surdo? Só me faltava essa.

- Senhor, a carteira!

A partir de amanhã vou começar a fazer uma dieta, caminhar todo dia, o que for. Só não da pra ficar assim. O senhor deve ter uns 20 anos a mais que eu. Não está correndo e mesmo eu andando num passo acelerado não estou conseguindo alcançá-lo. E nem pensar em correr no meio da rua até ele. Eu prefiro morrer a fazer esse papel de ridículo.

- Senhor, a carteira!

Maldita carteira. Devia ter deixado ela lá. Espero que ao menos ele me dê uns trocados como recompensa. Pelo menos assim posso comprar um refrigerante e matar a sede que essa perseguição ta me causando.

- Senhor, a carteira!

Será que ele não percebeu ainda que derrubou a carteira na hora que pagou o restaurante? Que droga. Estou atrasado.

- Senhor, a carteira!

O semáforo! É agora. Ele parou. Vou conseguir alcançá-lo!

- Senhor, a carteira!

Ainda um pouco distante. Mas vai dar tempo. Vou alcançá-lo, entregar a carteira e dar no pé para tentar chegar no horário no serviço.

- Senhor, a carteira!

Droga, ele resolveu atravessar a rua mesmo com o semáforo fechado. Já está no meio da rua. Que droga. Mas já estou perto o suficiente. Agora ele já consegue me ouvir, não é possível.

- Senhor, a carteira!

Ele me ouviu. Percebeu que não está com a carteira. Parece feliz com a minha boa ação. Talvez até me dê uma recompensa.

- Senhor, a carteira.

Quase lá. Cinco, seis passos, talvez.

Mas peraí. Não!

- Senhor, o ônibus!

Droga! Vou chegar atrasado a toa...

24 de jun. de 2009

[Quadrinhos/Séries] Em Deadwood as Fábulas sacam primeiro


Aproveitando que meu feriado de São João ia durar praticamente uma semana resolvi arranjar algo pra me entreter e ver se o tempo passava mais rápido e eu ficava finalmente de férias.

Como nerd preguiçoso, e aproveitando que anda chovendo praticamente todo dia e o dia todo aqui em Recife, resolvi, a princípio, colocar em dia minha leitura da HQ Fábulas (Fables) que há algum tempo andava parada.

Pra quem não conhece, Fábulas é uma HQ publicada nos EUA pela Vertigo, selo de quadrinhos com uma temática mais adulta da DC Comics (mesma editora de Batman, e Super-Homem), que já teve 3 encadernados lançados por aqui pela editora Devir (Lendas no Exílio, A Revolução dos Bichos, O Livro do Amor) e algumas edições e especiais publicados pela editora Pixel. Na revista, criada por Bill Willingham em 2002, Branca de Neves, Lobo Mau, Bela, Fera, Príncipe Encantado e centenas de outras fábulas tão bem conhecidas por nós dos contos infantis (algumas nem tanto) estão sendo alvo, na sua terra natal, do terror aplicado por um ser maligno conhecido apenas pela alcunha de Adversário. Tentando sobreviver à dominação imposta por ele, as fábulas fogem do seu mundo e vem buscar abrigo no nosso mundo real, e se estabelecem em Nova York.


Ao se estabelecerem em Nova York todas as fábulas concordam em dar anistia pelos seus “crimes” cometidos no passado e pra não chamar tanta a atenção movem todas as fábulas não humanas para “Fazenda”, uma propriedade fora da zona urbana protegida magicamente contra bisbilhoteiros. A cidade das Fábulas, como eles próprios chamam os quarteirões onde se concentram é comandada pela Branca de Neves e tem como Xerife o Lobo Mau, que no mundo real adotou uma forma humana.

As histórias são incrivelmente bem escritas e com roteiros soberbos que valeram a publicação uma coleção de prêmios, dentre eles vários Eisner Awards, o Oscar dos quadrinhos, muito mal comparando.


O único problema de ler Fábulas foi que acabaram muito rápido as edições traduzidas que encontrei. Meu feriado ainda não tinha chegado nem a metade e eu não tinha muito mais o que fazer, então resolvi colocar em dia outra coisa que a muito tempo andava me devendo. Assistir a terceira e última temporada de Deadwood.

Curioso é que eu não gostava de faroeste antigamente. Na verdade odiava. Achava longo e chato. Mas isso tudo mudou quando eu tive espinhas. Estranho falar isso, mas é a mais pura verdade. Como disse no post das espinhas eu acabei indo regularmente a uma dermatologista que ficava num shopping, e enquanto esperava o início da consulta gostava de olhar se tinha algo interessante na banca de revistas.


Numa dessas idas a banca vi uma revista que me chamou a atenção. A capa mostrava um cowboy de costas atirando contra um tipo mexicano numa espécie de duelo dentro de um cemitério, e em letras grandes a frase “Tex contra El Muerto”. Nunca tinha lido uma revista do Tex antes, mas aquela capa me fez comprar a revista, e ainda bem que eu a comprei porque ela mudou meu conceito sobre faroeste. A história toda era incrível e a cena final com o duelo dos dois só foi superada pra mim quando anos mais tarde eu vi a cena do duelo triplo de “O Bom, o Mal e o Feio”, outro filme que após ver só fez minha admiração pelo gênero aumentar.

Deadwood é uma série de faroeste da HBO que mostra o surgimento e o cotidiano da cidade de mesmo nome no velho oeste americano. O legal é que a cidade realmente existiu (os fatos eu não posso garantir) e fica atualmente no Estado de Dakota do Sul. Como praticamente toda série da HBO ela é de uma riqueza de detalhes e de um realismo impressionante. Faroeste ao bom e sujo estilo italiano.

Nessa terceira temporada o garimpo está em polvoroso com a tensão crescente entre os figurões da cidade. O poderoso e mal intencionado, recém dono do hotel da cidade, George Hearst está decidido a controlar o garimpo e aumentar sua influência na cidade. Para isso ele precisará comprar as licença de exploração da Sra. Ellsworth e não medirá esforços para conseguir, nem que para isso tenha que provocar uma “Guerra Fria” contra o dono do Gem Sallon, Al Swearengen, e o xerife da cidade Seth Bullock.

A temporada é um pouco mais fraca que as anteriores, mas ainda assim consegue manter o bom ritmo série. Um pena que não houve uma quarta temporada porque o clímax gerado no último episódio poderia ter sido melhor aproveitado se houvesse.


A belíssima abertura de Deadwood:


Um das pancadarias que acontece nessa terceira temporada. Pode conter spoiler.

11 de jun. de 2009

[Futebol/Nostalgia] 3 dentro 3 fora e picolé de abacate


Quanto era pequeno, nos idos de 94, 95, a rua onde eu moro fervilhava de crianças. Eram três prédios com facilmente mais de 20 crianças, e não estamos falando desses espigões de hoje em dia e sim de prédios pequenos de no máximo 6 andares. Além disso, o bairro onde eu moro era muito mais calmo do que hoje em dia, dava pra contar nos dedos das mãos o número de carros que passavam numa tarde. Num lugar assim, com muitas crianças a rua se tornava o principal ponto de encontro pras brincadeiras, principalmente o bom e velho futebol. Barrinha, barrão, barra-a-barra, zorrinha, 3 dentro 3 fora, bobinho, o número de variedades era quase infinito, sem contar as variações dentro das variedades.

Dentre estas a que mais jogávamos era sem dúvida 3 dentro 3 fora.

4 pessoas, um portão e uma bola, era tudo que precisávamos para passar um dia inteiro nos divertindo. Pra quem não conhece o jogo ele é bastante simples e é isso que o torna divertido. Das 4 pessoas uma fica no gol e as outras três jogam na linha. Se os jogadores de linha fizerem 3 gols troca o goleiro caso haja alguém esperando, se não houver mantém-se o goleiro até a linha cometer três “erros”, e é aí que entra a graça do jogo. Cada um cria a regra do que pode e o que não pode. No prédio vizinho jogava-se a variedade mais hardcore na minha opinião. Cada um só podia dar um toque na bola, só podia dar toque no ar, se desse dois era erro, se a bola parasse no chão tinha que ser levantada com um só toque, caso contrário era erro, se o goleiro agarrasse era ponto pra ele e pra finalizar se a bola saísse era erro. Isso sem falar que o portão onde jogávamos devia medir 1,70 m de altura por 2,50 m de largura o que tornava impossível fazer gol.

Nessa época eu devia ter uns 7 ou 8 anos e os outros jogadores eram sempre mais velhos, numa média de 4 ou 5 anos a mais. Pela diferença de idade eu mais assistia do que jogava, mas mesmo assim me divertia, principalmente quando conseguia sair do gol pra linha o que sempre provocava uma onda de gozação em cima de quem tinha cometido o último erro e ido pro gol.

Jogava isso todo dia durante as férias, às vezes começando de manhã e terminando a noite. Mas o tempo passou e a diferença de idade começou a ficar evidente. Os amigos que jogavam comigo começaram a entrar na adolescência e isso acabou fazendo as partidas diminuírem até pararem de vez.

Felizmente começaram a chegar outras crianças, dessa vez da minha idade, ao meu prédio o que possibilitou uma volta às velhas partidas de futebol. O portão agora não era mais o do prédio vizinho e sim o do meu prédio, que era maior e tornava as coisas mais fáceis. As regras também mudaram com o tempo, na verdade cada partida tinha uma regra diferente que precisava ser definida antes do início. Saiu o toque somente no ar, entrou só poder tocar de primeira, saiu o ponto ao agarrar a bola, depois de um tempo voltou a valer e por aí vai. A única coisa que não mudava era o fato de jogarmos a tarde inteira.

Uma das coisas que eu mais gostava e que era regra nas partidas era a pausa pra chupar picolé. Todo dia por volta das 3 horas da tarde o “Galego” passava na frente do meu prédio vendendo picolé. Galego era um garoto, uns 2 anos mais velhos que eu, que passava com uma caixa de isopor recheada de picolés todo santo dia aqui pelo prédio. Chocolate, morango, cajá, amendoim, limão, o estranho danoninho com leite condensado e o que eu mais gostava o de abacate, esses eram alguns dos sabores que eu me lembro que ele vendia. Mas o que tornava a coisa mais agradável era o preço, 10 centavos o picolé. Ter um real naquela época era sinal de uma tarde feliz recheada de futebol, suor e picolé.


Porém, o tempo foi passando, o bairro foi crescendo, os terrenos baldios foram se transformando em prédios, o número de carros foi crescendo e o jogo de bolo acabou ficando comprometido. Os carros que antes podia se contar nos dedos das mãos já não podia sem contados nem se usássemos os dos pés, de todas as crianças por sinal.

A brincadeira começou a se tornar mais perigosa. De quando em quando tínhamos que parar para deixar um carro passar, o que acabou tornando a brincadeira monótona. A dinâmica do jogo tinha acabado e com mães protetoras a maioria das crianças ficou impedida de brincar no meio da rua. E o jogo morreu de novo.

Não morreu de todo porque ainda continuamos jogando dentro do prédio, mas a graça não era a mesma. Nunca mais vimos cenas memoráveis como o chute de dentro do prédio que acertou magistralmente o pára-brisa de um carro em movimento, o incrível vôo para defender um gol feito do amigo mais goleiro nato que eu já tive, ou a bola que sobreviveu ao ser atropelada certeiramente pelo pneu de um fusca. Mas não morreu principalmente porque aqueles dias mágicos regados a picolé e sorvete ficarão eternamente na memória.

4 de mai. de 2009

[Nostalgia/Quadrinhos] Dylan Dog e o banheiro maldito


Na minha adolescência tive muita, mas muita espinha. Minha mãe, que também havia tido muitas na juventude dela, logo que elas começaram a cobrir minhas costas de uma forma que um cego conseguiria ler, prontificou-se a me levar num dermatologista pra cuidar da acne.

Lembro que pelo menos um dia por semana eu era obrigado a ir ao dermatologista pra ele fazer a aplicação de um ácido pra esfoliar a pele. Sem falar na vacina que eu tinha que tomar toda vez que ia lá. Era um horror! Eu, acostumado a dormir até umas 10, 11 horas da manhã todo dia, tinha que acordar com as galinhas pra pegar carona com meu pai na ida dele ao trabalho. Mas o pior de tudo não era nem isso. Não era o ácido, as vacinas, ou o acordar cedo pra ir pra clínica. O pior de tudo era ter que tirar o ácido num banheiro minúsculo usando a água da pia, isso sim era terrível.

O médico aplicava o ácido, deixava agir por uns dez minutos, ficava conversando besteira que, invariavelmente, eu não prestava atenção, porque sempre ficava com a atenção voltada pra aquela babinha branca nojenta que ficava no meio da boca dele enquanto ele falava. Passado os 10 minutos lá ia eu sem camisa, com o corpo todo esbranquiçado, porque o ácido quando secava ficava com essa coloração, passando pela sala de espera sempre cheia de gente em direção ao banheiro.

Um vaso sanitário com uma mangueirinha do lado e uma pia, o banheiro se restringia a isso. Estando lá dentro começava a batalha pra tirar o ácido. Tentei de tudo lá pra me lavar, desde usar a mangueira, que depois de me deixar encharcado se mostrou uma péssima idéia, até usar papel higiênico molhado. Depois de algumas semanas e algumas tentativas frustradas até que consegui me virar bem, mas mesmo assim não era algo que eu gostasse de fazer.

Passei bem seis meses fazendo isso, se não mais, até que as vacinas começaram a ficar caras demais e o efeito ser nenhum. Na verdade minhas espinhas só fizeram aumentar. Então, resolvemos mudar de médico. No outro médico, dessa vez uma médica, o tratamento recomendado foi outro, mais “perigoso”, mas com efeitos mais rápidos e evidentes.


Hoje em dia todo mundo toma o famoso Roacutan. Apareceu uma espinha toma o Roacutan que melhora. Ta certo que estou exagerando bastante, mas na época em que fiz o tratamento ele não era tão massificado quanto hoje em dia. Hoje os dermatologistas o receitam mais facilmente, fazem as recomendações e pronto, naquela época tinha todo um mistério por trás dele, os possíveis efeitos colaterais, você tomava até com certo receio.

Receitado o remédio, comecei a tomá-lo. A coisa começou a melhorar e agora, ao invés de uma vez por semana só tinha que aparecer por lá uma vez por mês, ou era de 15 em 15 dias, não me recordo bem, e só pra ela poder analisar o processo de melhora.

Numa dessas visitas de rotina a clínica, enquanto esperava fui dar uma volta. Como a clínica fica dentro de um Shopping, tinha bastante coisa pra olhar, mas o que me interessava mesmo era a banca de revista que tinha naquele mesmo corredor. Olhando as revistas que tinha lá encontrei uma Herói que falava sobre algo que na época eu achei interessante, mas que hoje em dia eu não faço a menor idéia do que tenha sido, só sei que a comprei. Dentro tinha um caderninho de umas poucas páginas mostrando as revistas que a editora da revista, a Conrad, iria lançar dentre em breve. Nele tinha anúncio de Neon Genesis Evangelion, Vagabond e de uma HQ italiana sobre um investigador do pesadelo, um tal de Dylan Dog.

O caderninho tinha uma “amostra grátis” das histórias e a desse tal Dylan Dog mostrava uma mulher correndo desesperada, se trancando num banheiro enquanto era perseguida por um cara com uma tesoura. Eu, que já na época gostava de filmes de terror, quando li aquilo fiquei louco. Só tinha lido coisas de terror em algumas “Contos da Crypta” (acho que esse era o nome) que tinha pegado com um amigo meu certa vez. Então, não tive dúvida, assim que saiu na banca comprei.


“Johnny Freak” era o nome da história. Não era a da amostra grátis, na verdade a da amostra grátis foi a seguinte, “O Despertar dos Mortos Vivos”, mas mesmo assim foi uma história incrível que mostrava a história de um garoto sem as pernas que vivia trancado num porão e que após um incêndio consegui fugir e acaba encontrando Dylan Dog. Essa facilmente está entre as 10 melhores histórias do Dylan. A revista durou apenas seis números e deixou um gostinho de quero mais, porque todas as edições foram excelentes.

Dylan Dog é um perfeito Don Juan que conquista quase todas as suas clientes no final das histórias, o que é irônico, se levarmos em conta que ele foi feito tendo como base as feições de Rupert Everett, declaradamente gay (nada contra os gays, só não podia perder a piadinha infame). Mas ele não daria tão certo se não tivesse o auxílio do seu faz tudo, o Groucho. Evidentemente baseado no Groucho Marx, dos Irmãos Marx, ele é o contraponto engraçado nas tramas cheias de assassinatos e criminosos. Com suas piadinhas non-sense e seu humor destrambelhado, ele só me fez gostar mais ainda da revista, afinal um dos personagens do cinema que eu adorava faziam parte dela.

Depois de alguns anos a editora Mythos resolveu lançá-lo por aqui e prontamente fui comprando enquanto saía. Essa nova leva, a terceira aqui no Brasil, porque além da Conrad, no início da década de 90 a editora Record já havia se aventurado também, durou 40 números, com seus altos e baixos, mas sempre mantendo um nível bom. A revista parou de ser lançada, mas aos poucos fui adquirindo algumas edições antigas da Record e até umas edições italianas que eu “leio as figuras”, porém sempre na esperança de que ele volte a dar as caras aqui pelo Brasil e posso viver mais umas das suas incríveis aventuras.

3 de mai. de 2009

[Cinema/Nostalgia] Lembranças do Incrível Homem que Derreteu


Quando eu era pequeno tinha uns gostos estranhos. Não que agora não os tenha mais, mas na época eles eram mais estranhos. Por volta dos nove, dez anos eu odiava a Globo. Não porque eu a achasse manipuladora, ou qualquer outra coisa que acham dela hoje em dia, mas simplesmente porque eu odiava a programação. Eu odiava novelas e se pensarmos que ela passa, e passava, 4 novelas de cerca de 1 hora por dia, temos 1/6 da programação com novelas. Porém, na época eu acordava 11 da manhã e ia dormir 11 da noite, então 1/3 do meu “dia” passava novela. Se pensarmos além, como eu estudava pela parte da tarde só podia ver televisão das 18 às 23h, o que dá 3 horas de novela, já que “Vale a Pena ver de Novo” não conta mais, dentre 5 horas possíveis. Então não é de estranhar que eu não gostasse do canal líder de audiência e preferisse assistir à TV Cultura com sua programação inesquecível pra mim que incluía Glub Glub, Cocoricó, Castelo Ra-Tim-Bu e Mundo de Beakman.

A única exceção que eu dava à Globo era no meu período de férias, porque só assim eu podia assistir “Sessão da Tarde”. Nessa época, quando em férias era rotina minha assistir o “Cinema em Casa” no SBT por volta das 13h30 e logo em seguida quando acabava, mudar pra Globo e assistir a mais um filme. Fazia isso quase todo dia e adorava, principalmente porque nessa época, meado dos anos 90, parece que quem escolhia os filmes tava pouco se importando pro conteúdo deles, então sempre tinha aqueles filmes de férias aonde uma turma de adolescentes ia pra uma praia americana dessas qualquer e ficava tentando perder a virgindade, sempre com muito conteúdo erótico e muitos seios de fora. Vale lembrar que na época a internet ainda era um sonho pelo menos pra grande parte das pessoas, e as coisas não eram tão fáceis como hoje em dia.

Como já disse, parece que naquela época o Sílvio Santos tinha menos juízo do que o pouco que ele tem hoje. Lembro que certa vez estava assistindo TV e vi a chamada do filme que iria passar logo em seguida. Ele tinha o fantástico nome de “O Incrível Homem que Derreteu” (The Incredible Melting Man, 1977) e foi isso que me fez querer vê-lo. O filme era sobre um grupo de astronautas que partia numa viagem espacial pra Saturno, mas algo dava errado e apenas um dos tripulantes voltava vivo, e ainda por cima derretendo.
Esperei uma meia hora pelo começo do filme morrendo de ansiedade e já com medo pelo filme que viria. Desde sempre as empregadas domésticas não duravam muito tempo aqui em casa e nessa época já tinham decidido que não haveria mais, então era só eu e meu irmão na casa nesse dia. Pra aumentar o clima de terror ele tinha saído pra brincar e eu tinha ficado sozinho em casa. Era uma hora da tarde, mas mesmo assim eu estava com medo por causa do filme.


Passada meia hora o filme começa e depois da viagem pra Saturno, que é a cena de abertura do filme, já mostra o sobrevivente todo enfaixado no hospital. Alguns minutos depois, logo após um exame médico ele se revolta, levanta-se e tira as ataduras que cobriam o rosto. Nessa hora vê-se um close do seu rosto derretendo, todo desfigurado...realmente assustador. Depois de ver essa cena eu não consegui mais ver nada, o medo foi maior, desliguei a TV e saí correndo, só parei quando tinha chegado no térreo do prédio onde as outras crianças brincavam. E de lá pra cá nunca mais vi o filme nem fiquei sabendo se ele iria passar. Talvez se soubesse teria visto novamente.

Graças à internet essa semana eu consegui achar o filme pra baixar (já tinha baixado outra vez, mas como não tinha conseguido a legenda desisti de ver). Baixei-o e depois de por em dia alguns outros filmes resolvi finalmente vê-lo depois desses quase 10 ou 15 anos, nem me lembro mais.


O filme que me apavorou quando pequeno, hoje se mostrou um filme mais nojento do que aterrorizante. Ver o cara derretendo, perdendo partes do corpo aos poucos é bastante asqueroso. Mas, o filme em si não é ruim, é um filme “B” com elementos de ficção científica, conspiração e gore até bem interessante. Nele Steve West (Alex Rebar), o astronauta, único sobrevivente da missão espacial que foi até os anéis de Saturno, após retornar começa a derreter e a se transforma numa massa gosmenta de fluídos, músculos, carne e ossos partidos. Porém, além da sua pele, seu cérebro também começou a derreter e isso incitou nele instintos selvagens que fazem com que ele mate qualquer um que atravesse sua frente. Em sua perseguição estão, secretamente, o General Perry (Myron Healey) e o Dr. Ted Nelson (Burr DeBunning), que querem por um fim nas mortes violentas e esconder do público o verdadeiro fiasco que foi a missão espacial.

Hoje em dia seria impossível esse filme passar no horário que passou naquela época, em plena tarde, em plenas férias escola. Tenho minhas dúvidas até se ele passaria hoje em dia, independente do horário, pois naquela época, onde passava de tudo, ele já era politicamente incorreto, principalmente pela cena com três crianças tentando fumar, imagine hoje em dia.