Quanto era pequeno, nos idos de 94, 95, a rua onde eu moro fervilhava de crianças. Eram três prédios com facilmente mais de 20 crianças, e não estamos falando desses espigões de hoje em dia e sim de prédios pequenos de no máximo 6 andares. Além disso, o bairro onde eu moro era muito mais calmo do que hoje em dia, dava pra contar nos dedos das mãos o número de carros que passavam numa tarde. Num lugar assim, com muitas crianças a rua se tornava o principal ponto de encontro pras brincadeiras, principalmente o bom e velho futebol. Barrinha, barrão, barra-a-barra, zorrinha, 3 dentro 3 fora, bobinho, o número de variedades era quase infinito, sem contar as variações dentro das variedades.
Dentre estas a que mais jogávamos era sem dúvida 3 dentro 3 fora.
Nessa época eu devia ter uns 7 ou 8 anos e os outros jogadores eram sempre mais velhos, numa média de 4 ou 5 anos a mais. Pela diferença de idade eu mais assistia do que jogava, mas mesmo assim me divertia, principalmente quando conseguia sair do gol pra linha o que sempre provocava uma onda de gozação em cima de quem tinha cometido o último erro e ido pro gol.
Jogava isso todo dia durante as férias, às vezes começando de manhã e terminando a noite. Mas o tempo passou e a diferença de idade começou a ficar evidente. Os amigos que jogavam comigo começaram a entrar na adolescência e isso acabou fazendo as partidas diminuírem até pararem de vez.
Felizmente começaram a chegar outras crianças, dessa vez da minha idade, ao meu prédio o que possibilitou uma volta às velhas partidas de futebol. O portão agora não era mais o do prédio vizinho e sim o do meu prédio, que era maior e tornava as coisas mais fáceis. As regras também mudaram com o tempo, na verdade cada partida tinha uma regra diferente que precisava ser definida antes do início. Saiu o toque somente no ar, entrou só poder tocar de primeira, saiu o ponto ao agarrar a bola, depois de um tempo voltou a valer e por aí vai. A única coisa que não mudava era o fato de jogarmos a tarde inteira.
Uma das coisas que eu mais gostava e que era regra nas partidas era a pausa pra chupar picolé. Todo dia por volta das 3 horas da tarde o “Galego” passava na frente do meu prédio vendendo picolé. Galego era um garoto, uns 2 anos mais velhos que eu, que passava com uma caixa de isopor recheada de picolés todo santo dia aqui pelo prédio. Chocolate, morango, cajá, amendoim, limão, o estranho danoninho com leite condensado e o que eu mais gostava o de abacate, esses eram alguns dos sabores que eu me lembro que ele vendia. Mas o que tornava a coisa mais agradável era o preço, 10 centavos o picolé. Ter um real naquela época era sinal de uma tarde feliz recheada de futebol, suor e picolé.
A brincadeira começou a se tornar mais perigosa. De quando em quando tínhamos que parar para deixar um carro passar, o que acabou tornando a brincadeira monótona. A dinâmica do jogo tinha acabado e com mães protetoras a maioria das crianças ficou impedida de brincar no meio da rua. E o jogo morreu de novo.
Não morreu de todo porque ainda continuamos jogando dentro do prédio, mas a graça não era a mesma. Nunca mais vimos cenas memoráveis como o chute de dentro do prédio que acertou magistralmente o pára-brisa de um carro em movimento, o incrível vôo para defender um gol feito do amigo mais goleiro nato que eu já tive, ou a bola que sobreviveu ao ser atropelada certeiramente pelo pneu de um fusca. Mas não morreu principalmente porque aqueles dias mágicos regados a picolé e sorvete ficarão eternamente na memória.

