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13 de abr. de 2023

[Literatura] Um País Como Outro Qualquer

Ano passado (2022) eu ganhei de presente de aniversário da minha digníssima esposa o livro "Um País Terrível" do escritor russo radicado nos Estados Unidos Keith Gessen. Assim que o recebi, além de ler a sinopse, porque eu nunca tinha ouvido falar desse livro, eu dei uma leve torcida de nariz com medo da leitura ser um desfile de estereótipos. Mas como o livro tinha sido publicado pela Editora Todavia, e a curadoria deles nunca me decepciona, resolvi dar uma chance. Passei ele na frente da pilha e uma semana depois já tinha devorado as mais de 400 páginas do livro. E confesso que minha primeira impressão sobre o livro estava completamente equivocada.

Realmente, quando comecei a leitura, até parecia que eu ia acertar, afinal no livro Andrei, o personagem principal, é um russo que após o fim da União Soviética mudou com a família para a terra da liberdade, os Estados Unidos. Ele ainda era muito novo na época da mudança e praticamente não guarda lembranças do seu período soviético. As suas memórias do período são praticamente construídas em cima da vivência dos seus pais, que não mantinham recordações muito boas desse período. Andrei vive uma vida americana normal, tentando construir uma carreira acadêmica na área de estudos literários eslavos quando seu irmão, que ainda mora na Rússia, pede para ele ir ao país tomar conta da avó já idosa, enquanto ele faz uma viagem a trabalho.

Meu medo, era que a partir desse momento ele fosse ser só um choque de realidades. E de fato é isso que acontece, mas não do jeito que eu temia. No livro, Keith Gessen consegue de forma magistral apresentar toda a decadência russa sem ir pelo caminho fácil de culpar o socialismo e exaltar o capitalismo. Na verdade ele faz o caminho inverso, ele de certa maneira culpa o capitalismo pela decadência russa. Uma decadência que já existia de certa maneira na época da União Soviética, mas por outras questões, e que é agravada com a abertura abrupta ao capital estrangeiro que o país teve após a Perestroika. 

A relação de Andrei e sua avó é um dos destaques do livro. Ambos são personagens incríveis que evoluem muito bem durante o livro. Não só eles, mas todos os personagens são muito bem construídos. Você se importa com cada um deles a medida que avança as páginas. Outro aspecto que eu gostei é que ele é praticamente uma "city tour" pela cidade de Moscou. A medida que eu fui lendo o livro eu fui marcando no Google Maps os locais citados e isso teve um poder de imersão que deu outra dimensão ao livro. Parecia que eu ia andando junto com Andrei admirando a arquitetura soviética se misturando com a Moscou moderna, com todos os seus excessos e toda a sua história.

Além disso, as reflexões sobre capitalismo, socialismo, União Soviética, Rússia moderna são muito bem colocadas. Sem endeusar nem demonizar nenhum sistema, apenas mostrando que a Rússia atual, com todas as suas contradições, é fruto de um processo histórico que está sendo bom para alguns, ao mesmo tempo que está sendo péssimo para outros, assim como qualquer outro sistema. 


8 de set. de 2022

[Idiossincrasias/Literatura] Idiota somos nozes

Concluí recentemente a leitura do livro "A Idiota" da escritora estadunidense Elif Batuman, e está leitura me trouxe memórias de quase 20 anos atrás quando entrei na universidade. Na trama, que se passa no ano de 1995, acompanhamos Selin, uma jovem americana de origem turca, em seu primeiro semestre em Harvard. Entre novas amizades, descoberta da internet, aulas de russo, romances enrolados e viagens pro exterior, vemos a formação da personalidade de Selin e percebemos como somos propícios a fazer coisas idiotas nessa fase da vida. 

O livro é dividido em duas parte. O semestre letivo e o dia a dia de Selin entre salas de aula e troca de mensagens por e-mail com Ivan, um aluno veterano húngaro com quem ela desenvolve uma relação no mínimo complexa, e o recesso letivo onde ela vai, por influência de Ivan, participar de um projeto que envolve ensinar inglês para crianças em vilas húngaras. Apesar de ter ficado incomodado com a segunda parte, o que não é de todo ruim, já que o incomodo vinha das escolhas que Selin fazia e que eu tava vendo que era furada, eu adorei a primeira parte do dia a dia dela na universidade, e foi essa parte que ativou memórias de quase 20 anos atrás.

Uma década depois do ano em que se passa a trama, em 2005, era eu quem estava entrando na universidade. Não era Harvard, mas era a UFPE, e na minha cabeça ingênua, formada por filmes americanos, as aulas seriam parecidas com aquelas que eu via nas telas, em salas tipo auditório com dezenas de alunos e o professor lá em baixo debatendo com a turma, etc. Quem já viu qualquer filme americano que se passe numa universidade sabe do que eu tô falando. Pra minha decepção, a única coisa em comuns foram as turmas com dezenas de alunos. Na verdade mais de uma centena as vezes. De resto nada foi como eu imaginava. Talvez tenha sido problema do curso que eu escolhi, engenharia mecânica, que não gerava o debate, a troca de ideias que eu queria. Só sei que na prática foi meio que uma continuidade do ensino médio nessa questão metodológica de ensino. 

Com quase vinte anos, eu já não tenho tantas memórias desse primeiro semestre. Eu sempre fui muito tímido, então demorei a fazer amizades. Tenho lembranças mais vívidas a partir do segundo semestre. Além disso, hoje eu sei que eu estava passando por umas crises de ansiedade na época, então tentava evitar situações que pudessem me gerar um ataque de pânico. Isso significa, no final das contas, assistir aula e voltar pra casa, sem interagir muito com os colegas fora da sala de aula, o que ajudou muito na falta de memórias nesse período.

A migração entre ensino médio e universidade foi bem complicada pra mim. Acho que a liberdade era tanta que eu não conseguia lidar. Soma-se a isso o fato do semestre letivo estar atrasado por causa das greves e eu só começar as aulas em abril, ao invés de fevereiro que seria o normal. Então entre novembro/dezembro de 2004 e abril de 2005 eu estava sem fazer nada, basicamente esperando o semestre letivo começar. Durante esse período, meu pai era síndico do prédio em que morávamos, e eu fiquei com a tarefa de ser o office boy dele pra pagar as contas do prédio. Foi nessas idas ao banco que eu comecei a ter as primeiras crises de pânico. Enquanto esperava nas filas eternas do banco meu cérebro começava a divagar e eu ia ficando nervoso sem motivo aparente. De repente meu corpo gelava e eu tinha ânsia de vômito. Aí que eu ficava mais nervoso ainda e tinha mais vontade de vomitar. Era aquela agonia até conseguir pagar e sair do banco tendo resolvido os assuntos que tinha ido tratar alí. 

Durante o primeiro semestre letivo essas crises continuaram e o jeito que eu tinha pra lidar era evitar situações de estresse. Isso não era algo inédito na minha vida. Sempre que eu passei por algum tipo de mudança eu tive algo dessa natureza até conseguir me ambientar e saber lidar com as novidades...

Quando eu cheguei nessa parte do texto eu percebi o quão fudida minha cabeça estava naquela época e como sempre foi meio fodida. Uau! O texto ficou parado semanas esperando eu digerir a informação e agora eu não sei nem mais sobre o que eu queria escrever. 

Depois dessa epifania confesso que meu conceito sobre o livro mudou. Antes eu tinha achado ele apenas ok, mas ele me afetou de um jeito que começo a entender porque ele foi finalista do Pulitzer.

Apesar dos apesares que citei, a universidade foi um local que me traz muitas lembranças legais até hoje, principalmente porque eu ainda continua dentro de uma, mas agora como professor. Dos biscoitos recheados divididos com a salada inteira onde você acabava ficando com apenas um, dos cochilos na biblioteca pós almoço, dos professores e suas caricaturas (hoje fico imaginando qual a que os meus alunos fazem de mim), das situações inusitadas envolvendo colegas e docentes, etc. 

O processo de amadurecimento é difícil e as escolhas são difíceis. Parecer idiota é fácil. É muito cômodo (e ao mesmo tempo muito injusto consigo mesmo) olhar com distanciamento temporal e de conhecimento das consequências para uma escolha do passado e se cobrar por ela.

29 de dez. de 2019

[Idiossincracias/Literatura] Uma Década em Leitura

Hoje eu me dei conta que faz 10 anos que eu uso o Skoob. Pra quem não conhece, o Skoob é uma plataforma/rede social para quem gosta de ler. Lá é possível registrar os livros lidos, marcar desejados, fazer resenhas, comentar, etc. Eu basicamente uso pra "anotar" os livros que vou lendo.

Eu não me considero um leitor voraz, como algumas pessoas que eu conheço, ou alguns booktubers que leem mais de 100 livros por ano. Olhando pra esses 10 anos, contabilizei 152 livros lidos, o que dá basicamente 15 livros por ano. É uma média que podia ser melhor, mas que me satisfaz. Podia ser melhor, porque nesse período teve alguns anos em que li por volta de 20 livros, mas nos últimos 3 anos o ritmo de leitura deu uma diminuída.

Entre 2010 e 2012 eu estava no mestrado, e apesar das leituras específicas da minha pesquisa e das atividades no laboratório, eu conseguia dedicar um bom tempo para a leitura. Eu 2013 eu comecei meu doutorado e no segundo semestre comecei a atuar como professor, o que fez com que o ritmo diminuísse já em 2013 e mais ainda em 2014. No começo de 2015 eu qualifiquei meu doutorado e já estava com as aulas estruturadas (além de ter tido uma greve que durou uns 3 meses), então voltei a ter um pouco mais de tempo para a leitura. Mas esse ritmo só durou aquele ano. Nos anos de 2016 e 2017 eu estava mais preocupado em terminar meu doutorado do que outra coisa, então foi só ladeira a baixo. Em 2018 e 2019 eu venho tentando recuperar o ritmo da leitura, mas está complicado. Eu assumi mais responsabilidades no trabalho e isso acaba demandando mais tempo e se reflete no ritmo da leitura. Mas esse ano de 2019 eu fiquei satisfeito de ter lido ao menos um livro por mês. No gráfico abaixo dá pra acompanhar o meu ritmo de leitura nesses 10 anos.


Outra coisa interessante que eu percebi foi como meu gosto literário foi mudando nesse tempo. No começo desses 10 anos eu estava lendo muito romance histórico, principalmente os escritos pelo Bernard Cornwell. Só em 2010 foram 4 livros dele lidos. Por volta de 2013 eu comecei a me aventurar mais nos livros de ficção científica tentando ler os clássicos. Nesse período eu li 1984, Laranja Mecânica, Neuromancer, O Homem do Castelo Alto, Fahrenheit 451, Fundação, entre outros. Sempre tive um pouco de resistência em ler livros do gênero (e dificuldade de achar edições novas até a editora Aleph apostar com força no segmento) e foi muito gratificante ter um maior contato com esses clássicos do gênero. Já nos últimos anos tenho cada vez mais lido livros de não-ficção, principalmente livros reportagem, um gênero que nunca tinha dado muita bola, mas que tem me cativado cada vez mais. 

Apesar da minha mudança de gosto, alguns autores sempre apareceram entre as leituras, como o Stephen King, o próprio Bernard Cornwell e Michael Crichton. São autores que eu adoro e que vez ou outra eu leio alguma coisa. É tanto que esses 3 são os autores que eu mais li nesse período de 10 anos. Só do Stephen King foram 12 livros lidos. Dá quase 10% do total. O gráfico abaixo mostra os autores que eu mais li nesse período.


Feito esse breve resumo das minhas leituras dos últimos 10 anos, vamos ao que eu li e ao que eu mais gostei de ter lido em cada ano.

2010

O ano de 2010 foi o ano em que eu mais li livros do Bernard Cornwell. Foram 4 livros do autor no total, sendo que Azincourt foi o que eu mais gostei dos 4. Mas dos 18 livros desse ano, o que eu mais gostei de ter lido foi o "A Zona Morta". Na época eu já tinha lido uns 2 ou 3 livros do Stephen King, mas a construção de personagem que ele faz nesse livro, a empatia que você adquiria pelo personagem principal nas primeiras 50-100 páginas, e a mudança de rumo que ele dá na vida dele de forma súbita e corajosa, é impressionante.


2011

Nesse ano eu li coisas que eu queria ler a muito tempo, como "O Parque dos Dinossauros" do Michael Crichton e "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça" do Washington Irving. Tive contato com Nick Hornby, George R. R. Martin e sua não tão famosa ainda Crônicas de Gelo e Fogo e Philip K. Dick, com "O Homem do Castelo Alto". Mas, por mais estranho que pareça, o meu preferido desse ano é o desconhecido "Cotoco", que eu adoraria que tivesse as continuações publicadas, mas que sei que nunca virão porque o livro não fez sucesso.

 
2012

Mais conhecido como o ano em que eu li uma "ruma" de Stephen King. Ao todo foram 4. Mas foi o ano também em que eu li o excelente "Sobrevivente" do Chuck Palahniuk. Pra mim o melhor livro dele dentre os que eu li. Li os ótimos "Contato" do Carl Sagan e "No Coração das Trevas" do Joseph Conrad. Finalizei a trilogia de livros do Guilherme del Toro e do Chuck Hogan, que gerou uma série (Strain) que eu comecei a ver, estava gostando, mas parei por falta de tempo.


2013

Apesar de menos leituras, a qualidade do que foi lido, eu acho superior ao anos anteriores. "Laranja Mecânica", "Fahrenheit 451" e "Fundação" no mesmo ano! Li também o "Mundo Perdido" do Michael Crichton, que me fez ter mais raiva ainda do filme, porque o livro é ótimo. Teve também o divertidíssimo "Cadê Você, Bernadette?". Mas a minha leitura preferida foi o não-ficção "Variedades da Experiência Científica" do Carl Sagan. O homem era um gênio mesmo. A maneira como ele consegue mostrar a insignificância do ser humano no universo, e de como a religiosidade pode ser experimentada de forma diferente quando você se coloco nessa posição, é única.


2014

Ano em que tive contato pela primeira vez com Fred Vargas e passei a amar a autora (sim, autora). Mais ficção científica com "Caverna de Aço" do Asimov, que na verdade é um livro policial com robôs. Teve o ótimo "O Maior Espetáculo da Terra", mas o que mais me prendeu foi "Novembro de 63" do Stephen King.


2015

Mais Fred Vargas, mais Stephen King, mais Chuck Palahniuk e mais ficção científica. Finalmente li "Neuromancer" que achei só ok, e "It - A coisa", que achei sensacional. Gostei bastante de "O Demonologista", mas o que levou o título de melhor do ano foi "Um Cântico para Leibwotiz" que, apesar de ter sido escrito nos anos 60, esta cada vez mais atual. Nele o mundo tem uma guerra nuclear e as pessoas culpam a ciência pelo caos que a sociedade está passando. Uma caça às bruxas começa e tudo ligado ao conhecimento cai por terra. O que resta de conhecimento fica nas mãos da igreja, através de livros, plantas baixas, mapas, etc, que vão sendo passados de geração pra geração por meio de cópias, como na idade média. Só que o que foi passado pra frente foram só os objetos, o conhecimento se perdeu.


2016

O ano de 2016 foi recheado de Fred Vargas e teve boas surpresas com o bom livro nacional "Realidade Oculta", que tem uma pegada bem parecida com "O Parque dos Dinossauros", mas com mais ficção-científica. O ponto forte é que o autor é paleontologista, então tem muita pesquisa por trás da história. Outra surpresa boa, mas que já era esperada pelos comentários positivos foi "A Guerra do Velho". Mas a melhor descoberta de 2016 foi sem sombra de dúvida "Z, A Cidade Perdida", que não foi bem uma descoberta, mas uma oportunidade de ler um livro que já queria a muito tempo, e de conhecer um dos autores que eu mais tenho gostado de ler ultimamente.


2017

Ano fraco de leitura, mas que foi redimido pela descoberta dos ótimos "A Caderneta Vermelha" e "Os Irmãos Sisters" e pela leitura de alguns dos maiores clássicos da ficção-científica: "1984", "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?" e "Tropas Estelares".


2018

Esse foi o ano da leitura de não-ficção. dos 10 livros lidos, 5 eram desse gênero e todos eu gostei bastante de ler. Coloco em destaque "Assassinos da Lua das Flores", "A Guerra" e "O Dono do Morro". Nesse ano também tive o prazer de ler "O Mundo Perdido" do Sir Arthur Conan Doyle, e conhecer uma faceta dele além dos livros do Sherlock Holmes.


2019

O ano ainda não acabou, mas dificilmente vou terminar mais alguma leitura até o dia 31, então posso dar por encerrado. Se já tive ano de ler romance histórico, ficção científica e não-ficção, esse foi o ano dos clássicos. Sejam mais antigos, ou clássicos modernos. Finalmente tomei vergonha na cara e li Kafka, li Dostoiévski, li Dumas, li Truman Capote, li Kurt Vonnegut. E todos foram bons. A única decepção foi "Crime e Castigo", não por ter achado ruim, mas porque minhas expectativas era muito grandes. Voltei a ler Michael Crichton, e como eu estava com saudade! Mas o grande destaque, e um dos melhores livros que eu li na vida, foi "O Vendido" do Paul Betty. Um livro que só pode ser escrito porque o escritor era o Paul Betty. Façam um favor a si mesmo. Leiam. Ponto.


26 de nov. de 2019

[Idiossincrasias/Literatura] A arca do tesouro


Quando eu era criança, na casa dos meus pais existia um móvel (que por sinal ainda existe) que era denominado como "A Arca", mesmo que na verdade ele fosse apenas uma cristaleira onde minha mãe guardava a louça que ela usava uma única vez por ano, na ceia de Natal. Na parte de baixo desse móvel, existiam dois compartimentos com portas onde os meus pais guardavam tralhas. De um lado ficavam as travessas e formas da minha mãe, enquanto que do outro ficavam os livros do meu pai. A coleção não era muito grande, nem tinha relíquias, mas para mim enquanto criança, aquilo exercia um enorme fascínio.

Dentre os livros que eu me recordo que ficavam guardados nesse móvel tinham: uma coleção da enciclopédia Barsa; uma coleção sobre personalidades históricas; uma coleção dos pensadores (que eu acabei doando pra UFPE quando me formei) e alguns clássicos. 

Meu pai sempre foi uma pessoa de gostos incomuns. Enquanto que por um lado o gosto literário e musical dele beire o erudito, ouvindo e lendo praticamente só os clássicos, por outro, o divertimento do domingo dele sempre foi ver as vídeo cassetadas do Faustão. Ele sempre ri com as mesmas piadas do Chaves, além de ter desenvolvido um gosto particularmente estranho por novelas mexicanas presentes na Netflix. 

Por causa desse gosto dele por clássicos, na minha infância e adolescência, sempre tive acesso a alguns deles, apesar de nunca tê-los lido. Dom Quixote (eu adorava ficar olhando as ilustrações do Gustave Doré), Crime e Castigo, Metamorfose, Processo, eram alguns desses livros que sempre estavam lá, que eu adorava pegar pra ver, mas tinha medo de ler. Medo na verdade não define bem o sentimento. Era mais um respeito. Como se eu não estivesse pronto, afinal de contas eram os livros do meu pai, a pessoa que eu considerava mais inteligente em todo o mundo.


De todos os clássicos que meu pai possuía, ele parecia ter uma predileção pelos de Dostoiévski e de Kafka, e talvez por isso, sempre tenham sido os autores que eu mais tive receio de ler. Ambos eu até tentei ler na minha adolescência, mas abandonei. Mais pelas edições que estavam velhas e fedendo a mofo, do que efetivamente por não ser capaz de ler. Fato é que eu nunca tinha lido nenhum dos dois.

Nesse ano de 2019 eu descobri que ia ser pai, e na minha mente veio a ideia fixa de que eu precisava ler esses dois autores, uma vez que meu pai tinha lido. Então pra ser pai era preciso ter lido Dostoiévski e Kafka. Não faz o menor sentido, mas na minha cabeça fazia. 


Kafka foi uma leitura mais tranquila. Em duas sentadas eu li Metamorfose. Durante minha vida toda tinha ouvido de diversas pessoas que Kafka era muito difícil, que era chato, etc. E muito pelo contrário, achei a leitura muito prazerosa e até bastante acessível, apesar de ter muito nas entrelinhas. Agora vencido o medo, acho que vou dar chance aos outros títulos do autor.

Já Dostoiévski não foi tão tranquilo pra mim. A leitura de Crime e Castigo se arrastou por quase 6 meses. Tive que recomeçar quando já tinha lido quase metade do livro porque não estava entendendo mais nada. Mas talvez a culpa nem seja do livro, e sim do meu tempo de leitura que estava bem comprometido nesse período. No fim, achei o livro bom. Talvez por já conhecer a história (esse é daqueles livros que mesmo sem ler você tem a trama toda na cabeça), não foi tão impactante pra mim. Mas ainda sim fiquei feliz de ler.

Pode ter sido loucura da minha cabeça ter me colocado essa obrigação, mas o fato é que minha esposa passou uma semana com 3 cm de dilatação, e no dia seguinte ao término da minha leitura de Crime e Castigo meu filho nasceu. A maioria das pessoas vai dizer que foi só coincidência, mas pra mim ele sabia que pra eu ser um bom pai eu teria que ter terminado esses clássicos.


6 de mai. de 2018

[Literatura] As muitas histórias de David Grann

Lá no já longínquo ano de 2009, meu pai era assinante da Revista Época. Sempre que a revista chegava, uma das primeiras seções que eu olhava era a que falava sobre literatura. Sempre tinha a lista dos livros mais vendidos da semana e uma reportagem sobre um lançamento. Em uma edição da revista semanal daquele ano, a reportagem dessa seção mostrava um livro com um grande Z formado por vegetação na capa, e com o subtítulo "A Cidade Perdida". Só a imagem já foi suficiente para despertar meu interesse e alimentar meu desejo de adquiri-lo. Esse desejo só aumentou quando li a sinopse que falava sobre um certo coronel do exército britânico, que teria vindo ao Brasil atrás de uma cidade perdida no meio da floresta amazônica, no melhor estilo Indiana Jones. Infelizmente na época eu não o achei para comprar em livrarias e acabei, com o tempo, esquecendo o título e o autor. Lembrava que o livro existia, mas não sabia mais como pesquisá-lo.


Sete anos depois, em 2016, dando uma olhada na Amazon, me deparo novamente com aquele Z enorme na capa. Toda a lembrança e a vontade de conhecer a história do coronel Percy Fawcett voltam a minha mente de imediato e, sem pensar duas vezes, coloco no carrinho e realizo a compra. Assim que o livro chega, passo ele na frente de toda a minha pilha de leitura e começo a me embrenhar no meio da floresta amazônica em busca do Eldorado brasileiro. E que aventura!

A escrita de David Grann, o autor do livro e jornalista da revista The New Yorker, é ágil e muito gostosa de ler. Além disso, a pesquisa histórica, tanto através de documentos quanto a partir de entrevistas com parentes de Fawcett e com as tribos indígenas com as quais o coronel teve contato durante sua aventura, consegue criar uma narrativa tão fluida, que quase é possível sentir o ar carregado de umidade da floresta amazônica. Se não bastasse a escrita incrível, a história do coronel Fawcett e sua obsessão por encontrar Z é sensacional. Antes de ler o livro eu já tinha ouvido falar dele e de como ele havia desaparecido durante suas explorações, porém, nunca tinha imaginado o quão fascinante ele e a sua aventura tinham sido.


Outro dia me peguei pensando que eu já vivi mais tempo no século XXI do que no século XX. Apesar disso, talvez por ter nascido num mundo analógico ao invés do mundo digital que temos hoje em dia, a sensação de pertencimento ao século XX e proximidade dele ainda são grandes. Pensamento diametralmente oposto talvez se aplique com relação ao período em que se passa a história do coronel Fawcett. O ano de 1925 me parece muito mais distante do que os menos de 90 anos que realmente tem. Muito talvez porque naquela época o mundo ainda era um lugar cheio de mistérios e inexplorado, diferente do mundo já bem conhecido e sem graça em que nasci. 

Fascinado pela aventura, eu li o livro em duas sentadas. Acompanhei o coronel Fawcett, seu filho Jack e o amigo dele Raleigh Rimmell se embrenhando pela mata, passando fome, encontrando tribos indígenas, e acompanhei o fim trágico e enigmático do coronel. Por sinal, o desaparecimento dele sempre foi o que mais me fascinou na história, e, apesar de não dar uma solução definitiva, o livro lida bem e apresenta uma hipótese interessante. Com relação a cidade, é interessante o ponto de vista apresentado pelo livro, e mais interessante ainda saber que no fim Fawcett talvez estivesse certo na sua obsessão.

A história do coronel Fawcett, tendo o livro de David Grann como referência, foi adaptada para o cinema (The Lost City of Z, 2016) e o filme é muito bem feito. Toma algumas liberdades criativas, mas no geral está tudo lá.


Há uns 3 meses, quase 2 anos depois de ter lido Z, eu estava olhando meus e-mails e abro um e-mail de propaganda da Saraiva com um livro onde a capa mostra dois índios americanos em um Ford T e atrás um poço de petróleo lançando óleo vermelho no ar com o título "Assassinos da Lua das Flores". Já achei capa curiosa, mas quando li a sinopse pensei "UAU! Parece foda!". Ela dizia o seguinte:
Nos Estados Unidos dos anos 1920, as pessoas com maior renda per capita do mundo eram membros da tribo indígena Osage, de Oklahoma. Depois da descoberta de petróleo sob o solo de sua reserva, esses improváveis milionários andavam em carros de luxo dirigidos por motoristas, viviam em mansões e mandavam seus filhos para estudar na Europa. Então, um a um, os Osage começaram a ser mortos.
Já tinha ficado interessado, mas quando vi nome do autor soube que tinha que comprar. David Grann, o mesmo autor de Z, a cidade perdida. Comprei o livro e descobri que ele tinha outro livro publicado aqui no Brasil, "O Diabo & Sherlock Holmes". Não pensei duas vezes e comprei os dois.


"O Diabo & Sherlock Holmes" trás, como o próprio subtítulo informa, histórias reais de assassinato, loucura e obsessão. São ao todo 12 reportagens que Grann escreve para diversas revistas reunidas em um único livro. Apesar de ter algumas histórias melhores do que outras o livro é excelente no geral. Destaco o capítulo "Circunstâncias Misteriosas", onde ele narra a misteriosa morte do maior especialista em Sherlock Holmes do mundo, e o sensacional "O Camaleão", sobre a vida de Frédéric Bourdin, um impostor que acaba se metendo numa enrascada quando tenta aplicar um dos seus golpes. Como as histórias são reportagens, a grande maioria pode ser encontrada facilmente nos sites das revistas onde foram publicadas (The New Yorker, The Atlantic, New York Times Magazine e The New Republic).

Já "Assassinos da Lua das Flores" relata a trágica histórica da tribo dos Osage, que após ser "jogada" de um lado pro outro pelo governo americano na época das colonizações do Oeste americano, acaba sendo alocada num pedaço de terra rochoso e infértil no meio do Oklahoma, mas que por acaso do destino estava sobre uma grande reserva de petróleo. Por causa do petróleo os índios se tornam a população mais rica da época à época. Porém, a riqueza não vem sem preço. Misteriosamente os membros da tribo começam a morrer de forma suspeita.

Assim como em Z, Grann apresenta a história com muito embasamento histórico, traçando todos os acontecimentos e tentando solucionar o mistério envolvido com as mortes. Gostei de ler sobre essa parte da história americana que eu não conhecia, além de aprender um pouco sobre a criação do FBI. Além disso, a mesma sensação com relação ao tempo que tive em Z se repete aqui. As mortes acontecem mais ou menos no mesmo período, menos de 100 anos atrás, mas o mundo parece tão diferente do atual e até do de 30 anos atrás quando nasci, que parece que aconteceram a muito mais tempo.

31 de jan. de 2015

[Literatura] Perdido em Marte



"- Fico me perguntando o que ele está pensando neste instante.
DIÁRIO DE BORDO: SOL 61
Por que o Aquaman consegue controlar baleias? Elas são mamíferos! Não faz sentido.
Nas minhas últimas idas à livraria tinha notado o livro "Perdidos em Marte" do escritor Andy Wein na seção de ficção científica, mas confesso que olhava a capa, lia o título e passava pro próximo. Alguma coisa nele não conseguia prender minha atenção. Na verdade ele não despertava curiosidade nenhuma em mim. A coisa só mudou quando estava vendo um post, em algum site que eu não em recordo mais qual era, falando sobre livros que vão virar filme nesse ano, 2015. Dentre os tantos livros estava "Perdidos em Marte", e pior, com o Matt Damon, Sean Bean e direção do Ridley Scott. Pensei comigo: "Ok, talvez o livro seja interessante. Da próxima vez que eu for à livraria vou dar uma olhada".

Há uns três dias eu estava de bobeira deitado na cama e minha esposa comenta comigo: "Aquele livro de ficção científica do post de filmes está com desconto no Kindle". Após alguns segundos de processamento meu cérebro compreendeu a frase e fui dar uma olhada. O desconto estava realmente muito bom, mas como não sabia nada sobre a história do livro fiquei meio com o pé atrás de comprar. Dei uma lida na sinopse que já é bem interessante e fiquei realmente curioso com o livro, principalmente pela parte que diz que Mark Watney, o astronauta que fica perdido em Marte planta batatas no planeta Vermelho. Quão absurda é a ideia de alguém plantando batata em Marte! 

Sinopse: "Há seis dias, o astronauta Mark Watney se tornou a décima sétima pessoa a pisar em Marte. E, provavelmente, será a primeira a morrer no planeta vermelho. 
Depois de uma forte tempestade de areia, a missão Ares 3 é abortada e a tripulação vai embora, certa de que Mark morreu em um terrível acidente.  
Ao despertar, ele se vê completamente sozinho, ferido e sem ter como avisar às pessoas na Terra que está vivo. E, mesmo que conseguisse se comunicar, seus mantimentos terminariam anos antes da chegada de um possível resgate. 
Ainda assim, Mark não está disposto a desistir. Munido de nada além de curiosidade e de suas habilidades de engenheiro e botânico – e um senso de humor inabalável –, ele embarca numa luta obstinada pela sobrevivência. 
Para isso, será o primeiro homem a plantar batatas em Marte e, usando uma genial mistura de cálculos e fita adesiva, vai elaborar um plano para entrar em contato com a Nasa e, quem sabe, sair vivo de lá. 
Com um forte embasamento científico real e moderno, Perdido em Marte é um suspense memorável e divertido, impulsionado por uma trama que não para de surpreender o leitor."

Apesar de ter ficado curioso com a sinopse ainda tava meio assim e resolvi pelo menos dar uma lida na amostra que o Kindle disponibiliza. Assim que acabou a amostra tive que comprar o livro e suspender a leitura de "A Coisa" do Stephen King e "J.R.R. Tolkien - o Senhor da Fantasia" de Michael White, que eu vinha intercalando até então.

O ritmo de "Perdido em Marte" é frenético. Apesar do livro cobrir um espaço de quase 2 anos o ritmo é incessante com algo sempre acontecendo. Não há perda de tempo com histórias paralelas, memórias que ajudam na construção do personagem, nada disso, simplesmente a história de um homem deixado pra trás pela tripulação em Marte com chances ínfimas de sobrevivência. Aqui vale ressaltar duas coisas. A primeira é que ele não foi deliberadamente deixado para trás. Todos os indícios indicavam que ele estava morte. E o segundo é que ele é um engenheiro mecânico, então não existe essa conversa de "chances ínfimas de sobrevivência". 

Pra quem ainda não suspeitou eu também sou engenheiro mecânico.

Além do ritmo frenético e da precisão científica do livro que em momento algum chega a ser maçante ou frustrante para leigos no assunto, o livro é extremamente divertido. Apesar de toda a desgraça que está acontecendo, o astronauta Mark Watney é o personagem mais cativante e engraçado que eu já tive o prazer de conhecer nos meus anos de leitura. Não tem como não se apegar ao personagem e sofrer, rir e torcer junto com ele.

As passagens mais divertidas, na minha opinião, são as que envolve a interação dele com a NASA. A NASA sempre tentando diminuir os riscos ao máximo, cumprindo protocolos, longos discussões para tomadas de decisão, e ele, muitas vezes, achando que a decisão é idiota e que não tem tempo pra essa besteira e resolvendo tudo com fita adesiva.

"Contei à NASA o que eu havia feito. Nossa conversa (parafraseada) foi:
Eu: "Desmontei tudo, encontrei o problema e o consertei."
Nasa: "Babaca."" 

Confesso que não me divertia tanto com um livro há muito tempo. Ele é o tipo de livro que prende você do começo ao fim e no final deixa um sentimento perda por ter acabado. Altamente recomendado, principalmente por causa do filme que está com estréia prevista para o final desse ano lá fora e só Deus sabe quando aqui no Brasil. Em tempos de filmes excelentes sobre espaço como "Gravidade" e "Interestelar", espero que "Perdido em Marte" também seja bom. História boa ele tem.

26 de dez. de 2014

[Literatura] Michael Crichton na minha Linha do Tempo



Até 2011 eu não tinha a menor ideia de quem era Michael Crichton. Mas tudo isso mudou quando um dia entrei na Livraria Saraiva do Shopping Recife e me deparei com o livro "Parque dos Dinossauros". Nunca tinha me passada pela cabeça que o filme dirigido por Steven Spielberg pudesse ser baseado em um livro. Não comprei o livro naquele dia, mas toda vez que ia a livraria ficava flertando com ele, até que um dia resolvi acabar com o flerte e investir nele. Comprei-o e em poucos dias devorei o livro. Se o filme é sensacional, o livro, que apresenta algumas diferenças na história, é melhor ainda.

A maneira do Michael Crichton contar histórias é muito envolvente. Sempre muito bem pesquisada, os fatos científicos apresentados por ele dão um tom de realidade às histórias fictícias contadas. A partir do final da leitura de "Parque dos Dinossauros" fiquei com vontade de ler todos os livros do autor. De 2011 pra cá tive o prazer de ler outros 4 livros dele: "Devoradores de Mortos", "Homem Terminal", "Mundo Perdido" e o mais recente, finalizado ontem no dia de Natal, "Linha do Tempo".

Confesso que não gostei muito de "Devoradores de Mortos" nem de "Homem Terminal". Porém, acho que o motivo está mais relacionado ao momento em que os li do que com os próprios livros. "Homem Terminal" eu li após ter lido "Sob a Redoma", livro do Stephen King que eu adorei e que me prendeu de um jeito que eu devorei as mais de 900 páginas em poucos dias. Ainda empolgado com o estilo prolixo do Stephen King, achei "Homem Terminal" muito enxuto, com as coisas acontecendo rápido demais. Já a leitura de "Devoradores de Mortos" foi prejudicada pelo momento. Estava escrevendo minha dissertação, tentando implementar umas rotinas no código fonte do meu trabalho, servindo de motorista pra levar minha mãe aos médicos dela, ou seja, não tinha muito tempo para me concentrar na leitura. Então acabou que li tão a prestação que a leitura não se desenvolveu.

"Mundo Perdido" e " Linha do Tempo", por outro lado, eu adorei. Ambos eu li nessa época de final de ano, o primeiro ano passado e o segundo esse ano. Assim, aproveitando o tempo livre devido ao recesso da Universidade, pude me deleitar melhor com essas incríveis histórias saídas da mente criativa do Michael Crichton. "Mundo Perdido" em nada lembra a péssima continuação cinematográfica de mesmo nome. Com história bem diferente, apesar de algumas semelhanças, e muito melhor, Michael Crichton mostra como se faz uma continuação de um clássico mantendo o mesmo nível.

 
"Linha do Tempo", o mais recente lido por mim, tem um ritmo tão frenético que, apesar de estar com a corda no pescoço por causa da qualificação do doutorado, não consegui largar. Nele um grupo de historiadores está fazendo uma escavação em um sítio histórico na França. Esse sítio histórico é formado por dois castelos que ficam em margens opostas de um rio, um monastério e um moinho que servia de ponte. Patrocinado pela ITC, uma empresa americana que atua na área de tecnologia quântica, o projeto coordenado pelo professor Johnston sofre uma reviravolta quando os historiadores começam a desconfiar que a ITC está escondendo o real motivo das pesquisas. Após ir tomar satisfações com a empresa, o professor Johnston fica incomunicável com o grupo, até que eles encontram uma mensagem datado do ano de 1357 com a letra do professor pedindo ajuda. Essa é a deixa para 4 dos seus alunos irem ajudá-lo. Contando apenas com 37 horas os 4 alunos são enviados pela ITC ao passado para tentar resgatar o professore e trazê-lo de volta para o presente.

Uma das qualidades que eu mais admiro no Michael Crichton é a pluralidade dos seus livros. Cada um tem um tema completamente diferente do outro, com a tecnologia servindo como tema recorrente nos seus livros. Porém, mesmo com assuntos tão diversos, a qualidade na narrativa é sempre envolvente e de excelente qualidade. 

8 de dez. de 2012

[Literatura/Nostalgia] Stephen King, Sob a Redoma e afins



Esse ano de 2012 em questões de leitura vem sendo um ano bastante bom pra mim. Li alguns livros que já figuram entre os meus favoritos, como por exemplo: “Sobrevivente” do Chuck Palahniuk, “A Tormenta de Espadas” do George R. R. Martin e “O Poderoso Chefão” do Mario Puzo. Foi um ano bom também porque li alguns livros do Stephen King que eu já queria ler há algum tempo e nunca tinha tempo (leia-se dinheiro) pra isso. Na verdade eu tenho um número até razoável de livros do Stephen King, mas sempre me faltou um pouco de coragem de lê-los, mesmo eu gostando muito do autor devido às adaptações cinematográficas. Gostava e tal, mas acabava sendo um negócio meio poser, já que os livros mesmo eu não lia. Pra não dizer que nunca tinha lido nada eu já tinha lido “Os Olhos do Dragão” e “O Iluminado", que por sinal a leitura deste último fez eu achar a adaptação do Stanley Kubrick extremamente ultra valorizada. Quase terminei de ler "O Talismã”, mas parei por algum motivo e isso já faz quase 10 anos, então, se for voltar a ler, vou ter que começar do começo.

“Os Olhos do Dragão” eu li graças a uma ida ao cinema. Estava esperando a seção iniciar e fui com meu pai a livraria. Lá vi um livro com um olho reptiliano vermelho me olhando e comecei a dar uma folheada. Acabou que antes do filme começar eu já tinha lido umas 50 páginas e esperneei até meu pai comprar. Li, gostei, mas achei muito infantil a história medieval do livro, mas como na orelha dizia que ele tinha escrito pro filho (ou era filha? Stephen King tem filha? Boa pergunta.) dei um desconto.


Um tempo depois, em 2004 se não me engano, começaram a sair nas bancas uma coleção da Planeta DeAgostini com os livros dele. Como o preço era razoável (mais barato que os da livraria pelo menos) e era capa dura comprei o primeiro volume, “O Iluminado”. Esse livro sim parecia com a ideia que eu tinha de Stephen King e foi uma leitura excelente. Me ajudou bastante na época do vestibular a relaxar e tá entre os livros dele que eu mais gosto. Talvez seja por isso que eu não gosto da versão do Kubrick. Acho que ele mudou muito da essência do livro. Deixou de ser a luta do menino sensitivo contra o hotel cheio de energia maligna, pra se tornar o Jack Nicholson ficando doido e tentando matar a família. Mas tem quem goste, então vamos em frente. Além de “ O Ilumindado” ainda comprei os 3 ou 4 volumes seguintes até que minha fonte de renda inexistente à época reclamou e tive que parar de comprar. 

Apesar de ter comprado esses outros livros nunca cheguei a lê-los. Tentei ler “Christine”, mas nunca avancei muito. Na verdade, na verdade, não li muita coisa nesse período. O que mais li foi Bernard Cornwell e mesmo assim muito pouco, tudo graças ao liseu típico de estudante e à falta de tempo (Engenharia é pra quem tem coragem amigo, não é pra todo mundo não). Só fui voltar a ler com mais afinco quando a faculdade estava chegando ao fim, lá por 2009, e começou a diminuir o tempo lendo os livros técnicos. Com a retomada da leitura resolvi conhecer outras histórias do mestre King.

De 2010 pra cá li 7 livros dele e a cada livro que leio só aumenta minha admiração por ele. É incrível a criatividade dele. Cada livro que você pega pra ler é uma surpresa porque não há fórmulas como acontece com alguns autores (sim, estou falando de Dan Brown que eu gosto, mas escreve sempre mais do mesmo), cada livro tem uma identidade própria e é singular, podendo ter elementos parecidos com algum outro, mas no geral sendo único. Dos que eu li, “Zona Morta”, “O Cemitério” e a “A Hora do Vampiro" estão entre minha leituras preferidas não só de terror, mas no geral. Zona Morta, por exemplo, tem uma das personagens mais carismáticas, em minha opinião, de toda literatura, o John Smith. A cena dele com a namorada no parque antes da tragédia que acontece com ele é simplesmente deliciosa de se ler


O mais recente livro dele que eu li foi o “Sob a Redoma”, um calhamaço de mais de 900 páginas, mas que já se juntou aos três citados anteriormente na minha lista de preferidos dele. Apesar do grande volume de páginas não tem como o livro não ser devorado. A leitura é muito agradável e mantem um ritmo frenético do começo ao fim. O próprio Stephen King cita isso em algum lugar do livro, agradecendo a sua agente por garantir que ele mantivesse o pé embaixo o tempo todo, e é realmente assim que você se sente, como se ele estivesse dirigindo a 140 km/h numa rodovia super movimentada.


“Sob a Redoma” mostra os dias que se seguem após um misterioso campo de força isolar completamente do mundo exterior a pequena cidade de Chester’s Mill, no Maine. Só que a “redoma”, como fica sendo conhecido o misterioso campo de força, não é algo que vai aparecendo devagar, com o conhecimento de todos, garantindo que a população se adapte a isso. Não, um segundo ela não está lá e no outro, de repente, está e é por causa disso que o livro já começa com um ritmo frenético, pois assim que a redoma aparece os seus efeitos já são sentidos graças a um acidente de avião. Dai pra frente é tragédia atrás de tragédia enquanto as pessoas se acostumam com a nova situação.

O livro em si não é um livro de terror, já que não tem nenhuma entidade fantasmagórica, nenhum monstro ou algo do gênero. É mais um suspense psicológico onde o monstro é o próprio homem. Como sempre acontece numa situação de crise têm sempre aqueles sedentos por poder que tentam se aproveitar da situação pra lucrar em proveito próprio. Em “Sob a Redoma” não é diferente. Enquanto grande parte da população não tem a menor ideia do que fazer, nem se sente com forças pra agir, o segundo vereador da cidade (no começo do livro explica o sistema de governo nas pequenas cidades do Maine pra situar o leitor), James "Big Jim" Rennie, tenta controlar a situação de maneira que ele possa se beneficiar ao máximo, nem que ele tenha que tomar decisões que só gente do naipe de Hitler e Mussolini tomaria. Para se contrapor a Big Jim e tentar por ordem na cidade temos Dale "Barbie" Barbara, um ex-tenente e agora chapeiro da lanchonete da cidade.


A história é muito bem escrita e com uma pesquisa bastante boa sobre o que poderia vir a ocorrer com as condições atmosféricas dentro da redoma dando credibilidade ao livro. Outro ponto que eu gostei do livro foi o final, porque eu passei o livro inteiro morrendo de medo que ele estragasse tudo no fim. Na minha cabeça eu só via dois finais possíveis: em um a redoma sumia tão de repente quanto voltou e o povo ia ter que se acostumar de volta à situação de antes, e no outro, ela nunca sumia e todos morriam porque uma hora o oxigênio acabava. Mas pra minha surpresa o final é de deixar você sem fôlego num clímax hiper ultra mega tenso e termina numa explicação boa levando-se em consideração o que ele fala durante todo o livro. Não é O final, mas pra Stephen King, que tem fama de não saber escrever finais, é um final muito decente pra um excelente livro.

Ainda em tempo, esses dias eu vi que o livro vai ser adaptado em uma série de 13 episódios pelo canal americano CBS. É torcer pra ficar fiel ao livro, porque se ficar vai ser muito boa.

23 de ago. de 2012

[Literatura] Almost Blue ou a fina arte de pagar pouco por livro bom



 

Sempre que vou ao supermercado Hiper Bompreço aqui de Recife dou uma olhada na seção de livros de lá. Não olho os livros novos com preço de livraria, mas sim os da “xepa”, os que ficam empilhados num canto, com preços praticamente simbólicos. É sempre empolgante garimpá-los em busca de alguma coisa que me chame a atenção e peça pra ser levada, como já aconteceu com o excelente “A Conspiração de Papel” do escritor estadunidense David Liss. Dez reais por um livro que na livraria custa cinquenta.

Na ultima escavação em busca de um livro interessante me deparei com um de capa verde limão com um iguana azul na capa. A capa por si só já era chamativa, mas junto com o preço - R$ 6,90 - fez com que eu desse uma chance pra sinopse, que por sinal ele não tinha na contracapa. Como o plástico que o envolvia estava rasgado e dava pra abrir a orelha pra ler, dei uma olhada, e o que tinha lá me atraiu. Falava sobre um assassino psicopata, de alcunha Iguana, que ataca estudantes universitários na cidade italiana de Bolonha, Almost Blue – que por sinal é o título do livro – canção composta por Elvis Costello, cantor que eu vinha ouvido bastante graças a trilha sonora de Gilmore Girls que minha namorada gravou pra mim pouco tempo antes, Reptile do Nine Inch Nails e Hell’s Bells do AC/DC, como elementos de composição do cenário.

Desde que li Alta Fidelidade do Nick Hornby acho bastante interessante essa mescla de literatura e música. Mesmo não dando pra extrair som do papel você consegue ouvir a música, e se bem escolhidas, como é o caso desse livro, elas ajudam a dar um ar cinematográfico à leitura. Ou seja, literatura, música e cinema numa lapada só.

Além disso, o livro era publicado pela Conrad, uma editora que eu gosto, principalmente pelos quadrinhos, e que normalmente lança umas coisas meio obscuras, diferentes do habitual e que tem, normalmente, potencial para me agradar. Então não pensei duas vezes, coloquei no carrinho e fui “fazer a feira”. Se fosse ruim eram só sete reais jogados fora.


Umas semanas depois, na casa da minha Guiga, enquanto eu me dava umas férias depois de um concurso de resultado não muito agradável, resolvi fazer Almost Blue furar a fila porque estava curioso sobre a história, e como ele era fininho – 220 páginas – não ia consumir muito tempo. Dito e feito, duas sentadas e um livro que me agradou do começo ao fim, com uma história envolvente e um final decente. O livro já agrada de cara na apresentação de Simon Martini, 25 anos, cego de nascença, e um dos três protagonistas do livro. Em poucas páginas Carlo Lucarelli, o autor, com um toque de genialidade, utilizando apenas o som pra descrever as coisas, coloca você na pele do rapaz e faz, de forma esplendorosa, o leitor se sentir cego por alguns momentos. Foi o trecho onde ele descreve como ele “vê” as cores que fez eu me interessar de vez pelo livro.

“As cores também significam algo pra mim. Têm uma voz, um som, como tudo. Um ruído que as distingue e que consigo reconhecer. E entender. O azul, por exemplo, com esse no meio, é a cor do azeite, das zebras e dos besouros. Vasos, vielas e cavalos são violeta e amarelo é a cor pontiaguda do martelo. E o negro não consigo imaginar, mas sei que é a cor do nada, de ninguém e da lacuna. Mas não é só uma questão de assonância. Existem cores que significam algo pela ideia que contêm. Pelo ruído da ideia que contêm. O verde, por exemplo, com o erre que arranha no meio e coça e esfola a pele, é a cor de uma coisa que queima, como o sol. Todas as cores que começam com , ao contrário, são belas. Como o branco ou o bronze. Ou o bege, que é belíssimo. Para mim, por exemplo, uma bela garota, para ser mesmo bela, precisa ter pele branca e cabelos da cor do bronze.”

Além de Simon, temos a inspetora Grazia Negro, e o próprio Iguana como protagonistas principais. Os capítulos do livro giram em torno desses três personagens e da investigação da série de assassinatos de estudantes universitários que vem ocorrendo nos últimos cinco anos na cidade de Bolonha, sendo os capítulos da Grazia narrados como um narrador onipresente e os dos outros dois como narradores personagens. Achei bastante interessante isso, principalmente porque você se sente cego quando nas peles do mocinho e do assassino. Na de Simon pelo óbvio motivo dele ser cego e só perceber as coisas através da audição e do olfato, e na do Iguana pelo fato dele ser completamente doido e o que ele enxerga não fazer o menor sentido, ser quase uma alucinação.

As músicas citadas na orelha e que são os títulos das três partes que compõem o livro dão uma amostra do que espera o leitor. A primeira parte, Almost Blue, traz um começo mais calmo, como um solo de piano, onde os personagens são apresentados e a trama é desenhada. A segunda parte, Reptile, mostra o desenvolver da trama com a investigação começando a acelerar, mas ainda caminhando num ritmo mais lento, um pouco confusa, sem saber quem é o assassino. E a terceira e última parte, Hell’s Bell, como um solo de guitarra alucinado, mostra a ação desenfreada da caçada ao assassino e as consequências que elas trazem pros protagonistas e as pessoas que os cercam. A correspondência do ritmo das músicas de mesmo nome com o ritmo dos capítulos é excelente e dão uma dinâmica cinematográfica muito interessante ao livro.

O livro é excelente, altamente recomendado e já um dos meus preferidos do gênero. Só fico triste que dificilmente lerei outra coisa desse escritor em português. O que é uma pena, já que ele tem bastante coisa escrita e, inclusive, alguns outros com a mesma inspetora como protagonista.