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17 de set. de 2012

[Conto] O Ladrão de joias

Este conto é dedicado especialmente à Anna Ingrid que é uma sonhadora e adora pescar, principalmente quando esta dormindo.

Já fazia dois meses que eu estava preso. Havia emagrecido alguns quilos, visto que a comida era odiosa e a consciência de alguém preso injustamente não me deixava dormir a noite. Contrariando a máxima de que cadeia está sempre lotada, na minha cela éramos apenas quatro. O ladrão de galinha, o bêbado que tinha vindo pra passar a noite e já havia três semanas que aqui estava, Jorge e eu. Jorge por sinal já estava na cela quando me prenderam injustamente e era uma pessoa de poucas palavras. Não era muito de puxar assunto e preferia ficar no seu canto envolto nos próprios pensamentos. Certo dia, pela primeira vez nesses dois meses em que me encontrava preso, ele, na hora da refeição, sentou-se ao meu lado e veio puxar assunto. “Cabeludo, por que te prenderam?” perguntou ele usando a alcunha que havia me sido imposta assim que cheguei, devido à vasta cabeleira que ostentava a época. “Fui preso por engano.” comentei, “Nada fiz e provarei isso, nem que me leve toda uma vida.” Respondi mal humorado. “Ninguém que aqui entra, entra por engano. Se aqui está é porque algo cometeu, mesmo que não seja o motivo principal de sua prisão.”, filosofou Jorge. “E tu, o que fizeste pra ser preso?” perguntei aborrecido com o tom de lição de moral a que a conversa tinha se encaminhado, e ouvi uma das histórias mais estranhas que já ouvi na minha vida. De tão absurdo até hoje tenho minhas dúvidas se Jorge se divertia às minhas custas ou se contava a verdade.

“Há alguns anos eu estava muito endividado. Havia perdido meu emprego e as contas só faziam se acumular. Estava em vias de tirar minha vida quando encontrei por acaso um velho conhecido que não via havia bastante tempo. Não éramos exatamente amigos íntimos, mas percebendo que eu enfrentava algum tipo de dificuldade me perguntou pelo que estava passando. Comentei que estava desempregado e que as contas só faziam aumentar. Ele, depois de dar uma checada para ver se ninguém estava nos ouvindo, comentou baixinho que talvez pudesse me ajudar. Fiquei deveras feliz com aquilo e perguntei se era algum tipo de emprego. Ele respondeu misteriosamente. “Tipo um emprego.” Não fiquei de todo feliz com o rumo que as coisas estavam tomando, mas para alguém que estava pensando em tirar a vida por causa das dívidas, qualquer serviço era bem vindo, mesmo que não fosse dos mais honestos. Pedia para que eu o encontrasse no dia seguinte e passou-me um endereço.”.

“No dia seguinte me dirigi até o endereço. Era uma casa antiga com aspecto de abandonada. Procurei pela campainha, mas não encontrei, ia bater palmas e chamar pelo meu amigo quando ouvi uma voz chamando meu nome. Intrigado, olhei na direção de onde ela vinha e reconheci meu amigo entre a vegetação que infestava a lateral da casa. Fui a sua direção e só então percebi que havia um buraco na parede que permitia a entrada na ruína, já que o termo casa parecia impróprio diante das condições do local. Adentrei o local, cumprimentei meu amigo e nos dirigimos para onde os outros estavam. Andamos por alguns corredores mal iluminados até finalmente chegarmos a um ambiente onde cerca de seis indivíduos já lá se encontravam. Assombrei-me com seus aspectos e sem pensar direito disse: “Mas eles são...”, “os melhores que existem no ramo.” completou meu amigo e disse que ficasse quieto e não falasse demais para não irritá-los.”.

“Eram bandidos se você ainda não percebeu.”, interrompeu a narrativa o bêbado, se dirigindo diretamente a mim. Havia alguns instantes que ele havia se sentado próximo e queria se juntar à plateia. “Claro que eram bandidos.“, disse Jorge irritado, “Se fossem escoteiros não estaríamos nos encontrados naquele muquifo tentando não levantar suspeitas. Eram bandidos, e vou ser mais preciso, eram ladrões de joias.”

“Depois de ser apresentado e bem recomendado pelo meu amigo eles me aceitaram no bando e começaram a discutir o plano para o próximo roubo. Iríamos roubar aquela joalheria que fica no centro da cidade. Nunca lembro o nome. Uma que fica em frente aos Correios.”, “Sim, sei qual é se intrometeu o bêbado. É uma...”, “Não importa.”, cortei bruscamente mais uma das intromissões do bêbado que agora já me irritava, ansioso por saber mais sobre a vida de crimes do meu companheiro de cela. “Não importa o nome, apenas continue Jorge.”. “Tudo bem.”, disse Jorge recomeçando o relato.

“Meu amigo então começou a me contar o plano. De acordo com ele teríamos que nos encontrar num local próximo de lá por volta das seis horas da noite. Então uma parte do grupo iria aproveitar o horário de fechamento da loja para roubá-la enquanto o outro seria usado como distração. Uma vez que seria meu primeiro roubo eu iria participar do grupo que alienava as joias como um teste de fogo, enquanto que esse meu amigo, já ancião no grupo por assim dizer, participava do grupo que servia como distração. O plano pareceu muito simplório para mim, mas fui assegurado pelo meu amigo que era um plano perfeito. Que há meses vinham fazendo isso e nem suspeita sobre eles havia sido levantada. Tranquilizei-me um pouco depois dessas palavras e fui para minha casa aproveitar o que podia ser os meus últimos momentos nela caso o roubo não desse certo.”.

“No dia seguinte, no horário combinado, estamos todos no ponto de encontro. Eu e dois dos meus companheiros seguimos para o telhado da loja para de lá entramos no momento de distração criado pelos meus outros quatro colegas. Depois de alguns instantes recebi o sinal do colega de crime que todos aceitavam como chefe para entrarmos. Entramos, fizemos a limpa, como dizem, e saímos. Tudo silenciosamente, com uma habilidade simiesca na entrada e na saída pelo telhado que parecia que eles tinham nascido pra isso. Pegamos as joias e fomos direto para a ruína que nos servia de quartel general para fazer a divisão da botija. Somente no momento em que lá cheguei que me dei conta do que tinha feito. Um misto de culpa e excitação se abateu sobre mim, mas a empolgação com a tarefa cumprida dava um prazer tão grande que a culpa logo se evaporou e só o desejo de sentir novamente a adrenalina do roubo restou no meu corpo. Pouco depois chegou o quarteto que havia servido de distração e pudemos finalmente comemorar o roubo bem sucedido. Comemoramos por um tempo e voltei pra minha casa. No dia seguinte...”, “Calma aí.”, o interrompi dessa vez. “O que seu amigo e os outros fizeram pra distrair a atenção dos funcionários da loja”, “Até hoje não sei exatamente.” respondeu Jorge. “Meu amigo sempre se esquivava fazendo mistério dizendo, “Macacada, o segredo é fazer macacada que eles se distraem e não percebem o roubo.”. Sempre aceitei aquilo como verdade, mesmo que parecesse absurdo e infantil, mas parecia bem plausível para mim a época.”.

“Durante algum tempo continuamos realizando roubos bem sucedidos. Cada vez mais minha conta engordava e cada vez mais eu queria mais da adrenalina do roubo. Com o tempo, a experiência foi me baixando a guarda e num desses roubos acabei por acionar o alarme da loja. Meus companheiros, com suas habilidades natas, num instante se escafederam do local, enquanto que eu não consegui fugir a tempo e acabei preso. Fui levado à delegacia e, após ser descoberta minha identidade de ladrão de joias, fui acusado de responsável pela onda de roubos de que vinha sendo assolada a cidade nos últimos tempos, e torturado a fim de delatar meus companheiros de crime. Nunca fui muito resistente à dor e acabei, em um momento de fraqueza, os delatando. Fui jogado numa cela e esperei longos dias até meu julgamento. Acabei sendo julgado culpado pelos meus crimes, como eu já esperava, mas o que eu não esperava era ser condenado por perjúrio também. Meu amigo nunca foi encontrado. O miserável conseguiu se esconder e deve continuar no crime hoje em dia. Já os outros cinco foram encontrados, mas foram considerados inocentes, e não acho impossível que continuem roubando. Aqueles trogloditas.”.

A história que parecia ter chegado ao fim, a mim, parecia comum, sem muito de diferente da de tantos outros ladrões de joias que são presos quase que diariamente pelo mundo a fora e acabam sendo os únicos considerados culpados. Seja por azar, por inteligência dos companheiros de crime ou boa influência destes com pessoas importantes. Comentei isso com Jorge e ele dando uma sonora gargalhada que me gelou a alma me disse. “Eram macacos!”, “Todos com exceção do meu amigo e eu eram macacos. Acredita nisso? Eu fazia parte de uma gangue de macacos. Pra que eles queriam joias, dinheiro, não sei, só sei que era isso que fazíamos. Mas o que me indigna mais hoje em dia não é nem o fato de ter sido preso, nem de ter sido considerado o único culpado. É que o chefe não era meu amigo, nem eu e sim um dos macacos!”. Depois de dar uma risada sem graça Jorge voltou pra seu canto e pra sua angustia particular. Já eu até hoje continuo aqui tentando provar minha inocência, porque nada fiz e aqui estou injustamente.

25 de jul. de 2010

[Conto] O Término


Eu a conheci por acaso. Um dia ela simplesmente me adicionou no MSN e puxou assunto. Não me pergunte como ela o descobriu, porque nem eu que era o mais interessado fiquei sabendo. Nas próprias palavras dela tempos depois me disse que tinha sido o destino, mas não tenho tanta certeza disso. Eu boçal e antipático forcei a simpatia com aquela estranha que tentava me convencer que os clássicos eram melhores que os filmes de terror tosco que eu tanto gostava.

Achei que seria apenas mais uma dessas conversas que se tem com alguém que te adiciona e depois, a única outra vez que troca algumas palavras é quando ela vem perguntar quem é você, e você faz de tudo pra ser simpático e tentar explicar quem é. Bem, eu não tenho essa capacidade de simpatia, simplesmente digo que ela que me adicionou. Porque qual o propósito de você adicionar alguém se você depois não vai mais lembrar quem ela é?

Mas com ela foi diferente, durante as semanas seguintes ela vinha diariamente puxar assunto. Eu até tentei evitar o contato entrando offline, mas mesmo eu sendo boçal e antipático tenho que admitir que ela foi me cativando e o tempo que eu passava offline pra fugir dela foi diminuindo.

A cada conversa ela me mostrava uma faceta desconhecida e a cada uma ia me conquistando mais e mais. Ela me cativou tanto que me conquistou por completo e eu me apaixonei. Foi aí que começou minha desgraça.

Aviso logo que não acontecerá nenhuma tragédia, isso, dependendo do seu ponto de vista. Pra mim o que aconteceu e que levou ao fim do nosso relacionamento foi uma tragédia. Pra ela foi uma infantilidade da minha parte, mas nada me fará aceitar aquilo.

Ah! Esqueci de comentar que ela morava a 600.000 metros de distância ou pra quem não gosta de números grandes, como ela, 2 estados acima do meu. Admito que a distância nunca foi um problema muito grande, porque nos falávamos quase todos os dias e quando nos víamos ao vivo o saber que logo íamos nos separar fazia com que aproveitássemos cada segundo juntos.

Passamos três anos nisso e nem de longe foi o principal motivo de tudo ter acabado. Está certo também que já vínhamos tendo nossos problemas, mas também não foram eles que causaram a separação. E vou provar como eu não estou sendo injusto com ela.

Como já disse ela é uma pessoa encantadora. Mas da mesma forma que ela era encantadora comigo ela era encantadora pras outras pessoas com quem ela conversava. Não digo com isso que ela era infiel para comigo. Digo apenas que conversar com ela era o mesmo que se tornar um grande fã dela ou na pior das hipóteses se apaixonar perdidamente por ela, como foi o meu caso.

Mesmo tendo vários defeitos, dos quais eu já indiquei alguns aqui, nunca criei caso com isso. A conheci assim e me apaixonei por ela já sabendo disso, então nunca tentei mudar isso nela. E olhe que nunca foi fácil porque de tempos em tempos eu tinha que segurar a barra dela triste e chorando pelos cantos, porque um “amigo” dela não queria ser apenas amigo e isso acabava com a amizade deles. Não sou santo, intimamente achava era bom pra ela aprender que ser encantadoramente cativante não é uma dádiva e sim um infortúnio. Mas eu era um bom namorado e guardava esses sentimentos só para mim.

Ainda havia os problemas inerentes a se namorar uma garota, como por exemplo, esperar por no mínimo duas horas ela se arrumar, nem que seja pra ir comprar pão na padaria, coisa que você facilmente faz de bermuda e chinelo, sendo a camiseta opcional. TPM e todo a crise mundial que parece se instalar quando a menstruação resolve dar as caras.

Sem falar em responder perguntas simples como, por exemplo, se ela esta gorda ou feia. Porque essas perguntas são típicas pegadinhas femininas, uma vez que não existe resposta apropriada. Responder “sim” é claramente uma insensatez já que elas nunca vão querer ouvir isso. Mas responder “não” também gerará uma fúria insana e descontrole motor e oral, pois um “não” rápido demais indicará uma resposta automática, e um “não” demorado demais indicará que você parou pra pensar na questão, e se você pensou o “sim” passou pela sua cabeça. Então a única opção é encontrar o tempo exato pra se dizer “não”, porém até hoje não se tem conhecimento de nenhum homem que tenha conseguido calcular esse tempo exato. Acredito até que ele deveria fazer parte daquelas hipóteses matemáticas que existe há séculos e ninguém consegue provar. Meu chute é 1.256 segundos.

Mas esses “problemas” femininos não são considerados verdadeiros problemas são apenas as letras miúdas que você sabe que estão lá, mas não liga de olhar quando assina um contrato.

Poderia gastar várias outras linhas indicando problemas dela, assim como ela poderia facilmente escrever um livro com os meus, mas vamos nos ater a esses. Apesar de tudo isso sempre a amei. Sim, eu a amava. Mesmo isso sendo algo estranho de se dizer hoje em dia. E sempre a respeitei, sempre fui compreensivo e generoso. Sempre abri a porta do carro, até café na cama levei. Mas apesar de tudo isso ela me apunhalou nas costas e aquilo eu não pude perdoar.

Eu seria capaz de perdoar tudo, até ela ter me traído com algum daqueles amigos que queriam ser mais do que amigos dela, mas isso eu não pude, nem posso perdoar. Mas uma coisa eu não posso negar. Ela sempre me deu dicas. Assim como eu já dei dicas do que aconteceu pra vocês também.

Sempre que pedia pra ela calcular alguma coisa ela dizia que era de Humanas e que era melhor eu calcular já que sou de Exatas. Cansei de contas as vezes em que ela recebeu o troco errado. Cansei de somar as contas dela. Sempre achei que ela fosse desligada, até mesmo burrinha, mas não, a coisa era pior, muito pior, ela não sabia contar. E eu podia aceitar tudo, menos que a mulher da minha vida não soubesse contar.

1 de mai. de 2010

[Conto] Garoto


Um garoto aparentando seus 10 anos corre pelo chão de terra batida que chamam de rua, indo em direção ao centro da cidade. No meio do caminho, vários outros meninos de idades aparentemente próximas a dele vão se juntando a corrida. A corrida é igual a tantas outras que diariamente eles dão juntos.

Conversa fiada, disputas eternas pra saber quem realmente ganhou aquele campeonato de pião que eles realizaram certa vez e até hoje gera confusão, a nova vizinha que chegara à cidade há poucos dias, mas já conseguira conquistar o coração de todos e gerar inveja entre a criançada graças a um sorrisinho dado ao garoto, futebol e outras dezenas de assuntos de meninos que vinham à tona diariamente.

As corridas para o centro da cidade nunca tinham um destino específico, em geral a diversão era a ida, a confraternização daquela dezena de meninos que, apesar de não terem uma condição financeira muito boa, eram ingenuamente felizes por não ter que se preocupar com isso ainda. A conversa, as brincadeiras, tudo isso bastava pra fazer o dia deles perfeito.

Naquela manhã ao chegarem à praça uma coisa específica chamou a atenção do garoto. Não exatamente na praça, mas no prédio que ficava do outro lado dela. Um cartaz. O cartaz do filme que estrearia naquele dia numa das duas salas do cinema da cidade. O título foi algo que a memória do nosso garoto não conseguiu guardar, porque todo o espaço da memória dele naquele dia serviu para guardar a imagem daquela linda mulher que aparecia reluzente naquele pedaço de papel colado na parede. O cabelo loiro ondulado, aquela boca carnuda vermelha, o olhar misterioso, o vestido branco com as alças cruzadas que destacavam os seus seios, tudo isso ficou registrado na memória do garoto e ainda hoje, se ele fechar os olhos, ele é capaz de lembras de cada detalhe daquela que foi a mulher mais linda que ele viu na sua vida.

Foi paixão à primeira vista, paixão platônica por aquela dama que aparecia linda e insinuante naquele pedaço de papel. Ver o filme não era uma escolha e sim uma obrigação, um dever cívico. Não pelo filme em si, como já deve ter ficado óbvio, mas para ver toda aquela beleza em movimento, espalhando seu charme pela tela grande do cinema. Mas como ver sem dinheiro? Ir ao cinema não era um entretenimento de todo caro, mas era algo que ele não poderia dar-se ao luxo de fazer. Procurou inutilmente por alguma moeda que pudesse ajudar nos bolsos, mas de lá nada saiu a não ser um botão, e seu precioso pião.

O dia de brincadeiras do garoto acabou ali. Ele agora tinha um objetivo, conseguir o dinheiro pra ver a sua amada – sim amada, porque ele sabia que no dia que os dois se encontrassem, porque esse dia um dia aconteceria, ela teria os mesmos sentimentos que ele tinha por ela.

A primeira idéia que veio a sua mente foi pedir dinheiro pros pais. Mas pedir dinheiro pra eles significava ter que explicar a serventia do dinheiro e jamais ele seria dado caso o destino fosse o cinema, coisa que seu pai achava inútil e sem sentido. Pra que se preocupar com a vida de alguém que nem existe? Era essa a resposta-pergunta que ele dava sempre que era inquirido sobre o porquê de não gostar e de nunca ter visto um filme no cinema. Outra opção era mentir, mas essa estava fora de questão, porque ele podia ser pobre, querer muito ver o filme, mas tinha sido bem criado e sabia que mentira tinha perna curta e sabia que a chinela do seu pai não ia pensar duas vezes antes de esquentar seu traseiro quando ele descobrisse a mentira.

O jeito então era trabalhar. Mas trabalhar com o quê?

A brincadeira com os outros meninos foi deixada pra depois. Não sem a incompreensão dos demais que o questionavam do porquê de ir embora sendo que tinham acabado de chegar.

“Crianças!” pensou nosso garoto. “Tenho mais com o que me preocupar do que com pião e bola de gude. Minha dama me espera!” completou o pensamento.

Enquanto corria pensava onde poderia arranjar o dinheiro. Engraxate, talvez? Não, seu pai não o deixaria usar a graxa. Pedir esmola? Jamais, teria as mesmas conseqüências de mentir. Carregar compras? Era uma alternativa, quem sabe as freguesas da venda não davam uns trocados por ele ajudar a levar as sacolas até em casa. Dobrou a direita e lá estava a venda. O movimento não estava muito bom no momento. Havia apenas dois fregueses. Um senhor nos seus 40 e poucos anos e uma senhora na casa dos 30. Eram poucas opções, mas foram suficientes.

Oferecida a ajuda, a senhora de pronto aceitou muito agradecida, dizendo que era raro ver crianças tão prestativas quanto o garoto naqueles tempos. O trajeto até a casa da senhora não era longo e as sacolas eram poucas, apenas duas e mesmo assim com apenas alguns vegetais e algumas frutas. Não conversaram muito, apenas algumas trocas de palavras onde o tema principal era a curiosidade dela sobre a história do garoto. De quem era filho, quantos anos tinha, essas coisas.

O trajeto logo acabou, o garoto colocou as compras na cozinha da senhora e esperou. Ela o conduziu até a porta da frente, agradeceu pela ajuda, se despediu e entrou. Ele ficou na porta da frente por um momento esperando pelo trocado pela ajuda que viria, mas logo se deu conta de que a espera seria a toa e foi embora, cabisbaixo, já pensando no que poderia fazer agora pra conseguir o dinheiro.

Não tinha andado nem uns vinte metros e ouviu alguém gritando. “Garoto!”. Virou e viu uma menina correndo em sua direção. Era a menina nova que lhe dera o sorrisinho que tanta inveja despertara nos seus amigos. Ela realmente era bonita e parecia gostar dele, porque se antes fora um sorrisinho agora era um sorriso completo com todos os dentes a mostra. Mas ela continuava sendo apenas uma menina, e ele já tinha a sua mulher, a mais linda e charmosa de todos por sinal e que estava a sua espera ali perto no cinema.

“Minha mãe pediu pra te entregar isso.”, estendeu a mão e deixou cair na mão espalmada do garoto algumas moedas. Uma olhadela rápida indicava o que ele tanto queria, as moedas somavam quantia suficiente pra pagar a entrada do cinema.

Ele só conseguiu dizer obrigado antes de dar as costas pra menina que triste lá ficou olhando aquele menino que tinha despertado sua atenção sair correndo para se encontrar com a outra. A corrida de volta a praça foi só alegria. Seu coração batia forte no seu peito diante da perspectiva de ver sua amada. Mas ao chegar à praça um sentimento ruim abateu-se sobre seu peito. Uma pequena multidão se aglomerava diante do cinema. Vencida a praça que o separava da confusão foi se misturando à muvuca tentando descobrir o motivo da aglomeração.

“Isso é um desrespeito!”, “Onde já se viu uma coisa dessas!”, “Depois de todo o mal que aquele causou, isso!”, “Eu esperava mais dele!”, “Nunca imaginei que ele fosse desses, mas o que podia se esperar dele? Ele é da terra daquele lá!”. As frases entravam na cabeça do garoto, mas não faziam sentido. De quem eles estavam falando? Quem era aquele lá? Mas isso não era importante. Confusão a parte a única coisa que ele queria era ver sua amada. Porém, um braço achava o contrário.

“Onde você acha que vai garoto? Ninguém vai entrar nesse cinema enquanto ele estiver passando aquele desaforo”, o braço falou e apontou para o outro cartaz que estava colado ao lado do dela. Um cartaz que diante da beleza do dela passara despercebido por ele mais cedo. O cartaz era simples, apenas um homem, uma mulher e outro homem usando um chapéu de couro com umas estrelas na cabeça. Não parecia ao garoto algo que pudesse provocar aquele alvoroço todo e impedi-lo de ver o filme. Mas ao que parece ele era capaz sim, porque a confusão perdurou e depois de esperar por horas sem fio veio a frustração e a decepção. E com a decepção ela já não parecia mais tão bela.

Os outros meninos cansados de assistir o desenrolar da confusão tinham voltado a brincar e o garoto logo se juntou a eles e foi recebido como se nunca tivesse saído. Brincaram o dia todo e até compraram umas balas com o dinheiro que o garoto tinha conseguido e que agora não tinham mais serventia diante da situação que ainda continuava no cinema. O resto do dia passou como todos os outros e terminou como todos os anteriores também, com cada um seguindo o caminho de sua casa. O único que não foi logo foi o garoto que resolveu dar uma última olhada na única mulher que ele tinha realmente amado e a que, agora que ele a havia decepcionado, provavelmente não queria mais nada com ele.

Parou em frente ao cartaz dela e a admirou por um longo tempo. O outro cartaz havia sido arrancado. Pelo visto a turba tinha vencido. Uma lágrima desceu pelo rosto do garoto no mesmo momento que uma mão tocou no seu ombro. Era o dono do cinema que ao seu lado com a mão no seu ombro também fitava o cartaz.

“Linda, não acha? Uma pena não ter podido mostrar às pessoas dessa cidade a mulher mais linda do mundo, por causa de um simples filme. Uma pena. Ao que parece só você conseguiu enxergar a beleza dela ao invés da feiúra dele. Venha vê-la amanhã, não precisa pagar. O mundo precisa de mais garotos que vejam a beleza ao invés da feiúra das coisas.”, disse o dono do cinema, deu uma tapinha no ombro do garoto e entrou.

Um sorriso foi surgindo no rosto do garoto. Um misto de incredulidade e de orgulho. Ele sorriu, olhou mais uma vez pra mulher mais linda que ele já tinha visto e correu. Correu sabendo que sua amada estaria orgulhosa dele e que, o melhor de tudo, no dia seguinte ele finalmente iria conhecê-la pessoalmente. E correu.

27 de jun. de 2009

[Conto] A carteira


- Senhor, a carteira!

Essas coisas só acontecem comigo quando estou atrasado para o serviço. Pior é que eu já cheguei fora do horário ontem. O supervisor vai querer comer meu fígado hoje. Já posso ir me preparando pro esporro. Mas eu tenho que fazer isso. Eu podia apenas ficar com o dinheiro do cara e dane-se a carteira com os documentos dele, mas eu não sou assim.

- Senhor, a carteira!

Ta certo que ele está um pouco distante, mas não é possível que ele não esteja me ouvindo. Será que ele é surdo? Só me faltava essa.

- Senhor, a carteira!

A partir de amanhã vou começar a fazer uma dieta, caminhar todo dia, o que for. Só não da pra ficar assim. O senhor deve ter uns 20 anos a mais que eu. Não está correndo e mesmo eu andando num passo acelerado não estou conseguindo alcançá-lo. E nem pensar em correr no meio da rua até ele. Eu prefiro morrer a fazer esse papel de ridículo.

- Senhor, a carteira!

Maldita carteira. Devia ter deixado ela lá. Espero que ao menos ele me dê uns trocados como recompensa. Pelo menos assim posso comprar um refrigerante e matar a sede que essa perseguição ta me causando.

- Senhor, a carteira!

Será que ele não percebeu ainda que derrubou a carteira na hora que pagou o restaurante? Que droga. Estou atrasado.

- Senhor, a carteira!

O semáforo! É agora. Ele parou. Vou conseguir alcançá-lo!

- Senhor, a carteira!

Ainda um pouco distante. Mas vai dar tempo. Vou alcançá-lo, entregar a carteira e dar no pé para tentar chegar no horário no serviço.

- Senhor, a carteira!

Droga, ele resolveu atravessar a rua mesmo com o semáforo fechado. Já está no meio da rua. Que droga. Mas já estou perto o suficiente. Agora ele já consegue me ouvir, não é possível.

- Senhor, a carteira!

Ele me ouviu. Percebeu que não está com a carteira. Parece feliz com a minha boa ação. Talvez até me dê uma recompensa.

- Senhor, a carteira.

Quase lá. Cinco, seis passos, talvez.

Mas peraí. Não!

- Senhor, o ônibus!

Droga! Vou chegar atrasado a toa...

28 de nov. de 2008

[Conto] A hora só é a hora quando eu quiser


- Uma, por favor! – pediu o rapaz à moça da bilheteria.

Era terça feira, 22h e naquele cinema, encravado no meio do centro imundo daquela cidade, um rapaz entrava solitário na sala do cinema. A sala fedia a mofo, cigarro, pipoca velha e sexo. Era uma dessas espeluncas onde os fracassados vão. Aqueles que não têm para onde ir e que resolvem se matar lentamente vivendo solitários, drogados e desocupados.

Sim, aquele rapaz não é diferente de tantos outros que ali vão. É um desempregado que a muito saíra da casa dos pais, mas que era melhor lá ter ficado, pois lá não pagava contas. Ta certo que hoje em dia ele ainda não paga, mas pelo menos antes havia alguém pra pagar e ele não precisava ficar se escondendo dos cobradores como um rato se esconde de um gato. Mas isso esta para mudar e eu acompanhei isso, assim como acompanho tudo. Na verdade quase tudo. Não se pode estar em todos os cantos ao mesmo tempo. Pelo menos não todo mundo.

Talvez você já esteja suspeitando quem eu seja, mas se não, tudo bem, um dia nós seremos apresentados. Para alguns, isso é um desgosto, algo que vocês prefeririam morrer a ter que me encontrar. O que é estranho já que vocês só me encontram na hora da morte. Mas vocês humanos são seres estranhos. Tão estranhos que o rapaz sobre o qual vos contarei sua façanha é um dos que não vêm um encontro comigo como algo estranho, e sim como algo desejável. Seu nome era Dylan e a sua idade era o mesmo número do horário em que ele entrou no cinema naquele dia quando tudo aconteceu.

Agora que conhecemos o nome do nosso herói, ou tolo se vocês preferirem, deixem-me falar um pouco sobre ele. Dylan fora uma criança nascida em uma família com problemas. Aquela coisa de sempre. Pais jovens e viciados que não estão ligando a mínima pros filhos, e que vivem brigando. Em casa o coitado – sim, eu tenho pena de Dylan, ele sofreu muito - era humilhado pelos pais e pelos irmãos mais velhos. Até o cachorro, um velho vira-lata sarnento, era mais bem tratado do que ele. Mas a vida de Dylan em casa era uma maravilha se comparada com a vida dele na escola. Ah, a escola! Para alguns um paraíso, para outros o inferno. Talvez seja por isso que Dylan gostaria tanto de me conhecer. E às vezes, quando penso nele – sim, eu não sou uma pessoa sem coração como vocês pensam. Esse é o meu trabalho e assim como qualquer um tenho que cumpri-lo, gostando ou não – me sinto culpada por ter demorado a encontrá-lo, foram... Não, não vou dizer com quantos anos o nosso pobre Dylan morreu. Eu não seria tão má com vocês a ponto de dar uma dica de como termina a nossa história – ta vendo como eu não sou o monstro que vocês imaginam. Mas voltando, com 16 anos nosso amigo não agüentava sua vida, já chegara até ao ponto de tentar pegar um atalho e me encontrar antes, mas a vida – ou a morte como preferir – não funciona assim. Quem te encontra sou eu, e não ao contrário. Esse caso é até interessante de ser contado, porque ele mostra um dos motivos de eu sentir pena do nosso Dylan. Ele é azarado... – e um pouco burro também. Certa vez, ele tentou pular do prédio onde ele trabalhava, mas ao chegar à janela viu que ela tinha grades. Procurou feito um maluco uma chave de fendas para removê-la, tão grande era sua resignação com a vida. Mas, como eu disse, a hora só é a hora quando eu quiser. A grade não era aparafusada e sim chumbada na parede. Nosso amigo só pôde chorar como um bebê nesse dia. Hoje ele deve se sentir feliz por isso, mas vamos logo à história antes que eu conte o final sem querer.

Dylan entrou na sala do cinema.

O odor ocre queimou suas narinas.

Olhou em volta a procura de um lugar para se sentar, mas não teve que procurar muito, afinal, só deviam ter umas 10 pessoas naquela sala. Uns casais fazendo sexo lá na frente, uns drogados viajando num canto e ele.

Ele escolheu uma cadeira no meio da sala, sentou-se e tentou se concentrar no filme. – Sette Scialli Di Seta Gialla – fora como a bilheteira chamara o filme. Ao que parece era um giallo bem meia boca, mas que ao menos tinha uma atriz de quem ele gostava. Sylva Koscina.

Meia hora mais tarde Dylan acordou com alguém falando perto de si.

- Me passa a pipoca, querida.

- Não comprei pipoca hoje, companheiro. – respondeu Dylan ainda meio que adormecido.

- Como?

- Ah, desculpe, achei que estivesse falando comigo. – Dylan agora já mais acordado desculpava-se com um senhor careca sentado na fila da frente, acompanhado por uma mulher, a qual Dylan não pôde olhar direito, só podia afirmar que era loira e ponto.

Dylan esfregou os olhos, bocejou e tentou lembrar-se o que acontecera desde a hora que entrara na sala. Provavelmente dormira ao sentar-se, o que não era incomum de acontecer. Aquele cinema era visita freqüente e ele já perdera a conta de quantas vezes havia caído no sono no meio de uma sessão. O que era estranho na verdade era terem sentado tão perto enquanto o cinema estava praticamente vazio. Mas vá saber, esse mundo é cheio de estranhos e Dylan era apenas mais um deles.

22h 40 min, muito cedo ainda. A noite acabara de começar e Dylan já estava de saco cheio dela. O filme era uma porcaria. Os atores atuavam pessimamente, e até a sua querida Sylva estava numa noite péssima.

- Que droga de filme, vou pedir meu dinheiro de volta e dar o fora daqui.

Chegando à bilheteria não encontrou ninguém. O filme já começara a 40 min e supondo que ninguém mais ia querer ver essa porcaria a bilheteira provavelmente ou devia estar em algum canto se drogando ou trepando por aí.

Dylan não tinha pra onde ir. Pra casa não dava. Tinham cortado luz, água e gás. Só não haviam mandado ele próprio embora, porque ele dava um jeito de não receber o comunicado do oficial de justiça. O jeito era voltar pro cinema e tentar dormir mais um pouco. Mas antes resolveu dar uma passada no banheiro para aliviar a bexiga.

Como era de se imaginar o banheiro era imundo. As paredes todas sujas de fezes, até o teto também continha vestígios de excremento humano. – Como alguém consegue sujar lá em cima? – se perguntou. Mas ele sabia a resposta. Humanos. Sem contar os próprios vasos sanitários que pareciam mais esgotos de tão imundos que estavam. Bem, abriu o zíper e... Ta bom, vocês sabem como o negócio funciona, eu não preciso explicar.

Ele já ia saindo do reservado quando escuta alguém entrar fazendo uma barulheira.
- Vai meu garotão, tira logo essa roupa!

- Mas que droga, era só o que me faltava, um casal transando e me impedindo de sair da porcaria desse banheiro imundo e fedorento. – resmungou o pobre Dylan para si próprio.

Mas fazer o quê. Dylan era tão fracassado que não seria homem suficiente pra sair e atrapalhar o casal. O jeito era sentar no vaso e esperar. Provavelmente o coito duraria 5 minutos e tudo estaria resolvido.

- Oh! Vai, vai! Isso, querido! – aqueles gemidos já o estavam deixando de saco cheio, porque além de tudo, ele era um fracassado na cama, e aquilo só o estava deixando mais estressado ainda.

- Ai, ai, assim não, querido, ta machucando.

- Você agüenta.

- Para! Ta me machucando!

- Olha aqui sua vadiazinha, eu estou te pagando, então vai ser do jeito que eu quiser.

- Socorro!

- Cala essa boca sua vagabunda.

O barulho de tapa doeu até na minha alma nessa hora e até Dylan, covardão do jeito que era, começou a ter vontade de ser macho suficiente pra defender aquela pobre alma em apuros.

- Olha aqui sua vagabunda, se não for do jeito que eu quero eu te enfio essa faca na garganta, ta me entendendo? E é bom você calar essa matraca antes que eu me irrite.

Dylan ouviu um baque seco e viu que o homem havia empurrado a mulher ao chão. Por debaixo da porta podia-se ver sua cabeça. Rosto contra o chão e uma mão segurando com força uma cabeleira loira. Sua face estava virada para Dylan e ele podia ver que a pobre mulher chorava compulsivamente e gemia de dor.

Seja homem, Dylan! Enfrente esse covarde!

Mas é assim mesmo, esse é o Dylan que todos conhecemos, incapaz de ter coragem numa hora dessas. Provavelmente ele deve estar cagando nas calças nesse momento. Aliás, não podia estar num lugar mais adequado para estar se cagando de medo.

Esse é mais um dos motivos pelo qual eu tenho pena do Dylan. Ele é medroso.

É Dylan, esperemos mais um pouco, daqui a pouco tudo acaba. Você sai desse cubículo fétido e vai para sua vidinha fétida. Ser apenas mais um ser insignificante nesse mundo enorme.

Espera aí! Dylan, o que você está fazendo? Você esta pensando em ajudar essa pobre moça? Mas isso não é da sua conta, você nem ao menos a conhece.

Sim, amigos, nosso amigo em comum, ao que parece, resolveu mudar sua vida, criar coragem e encará-la de frente. Será que teremos alguém que fará a diferença hoje nesse banheiro dum cinema de terceira, no meio de uma cidade de quinta? Pelo visto sim, pois Dylan abre a porta de uma vez com um chute bem dado e parte pra cima do agressor.

O que chega primeiro é seu punho, que acerta o agressor em cheio no nariz. O agressor cai pra trás urrando de dor. O sangue escorre pelo seu nariz e suja o chão inteiro a sua volta. Nesse meio tempo, Dylan abaixa-se próximo da mulher e pergunta se ela está bem. Que pergunta idiota... É claro que ela não esta bem, acabou de ser violentada por um careca imundo – sim, após dar o soco no agressor Dylan pode ver que ele era o cara da pipoca, o cara que o havia acordado, o Careca. Bem que ele merecia um soco mesmo, Dylan havia pensado quando acordou, mas naquela hora não tinha coragem o suficiente, mas agora tinha.

Falando no Careca, o sangue que escorria pelo seu nariz já tinha diminuído um pouco o fluxo, e a dor lacerante que sentia ia diminuindo aos poucos. Já não o impedia de raciocinar mais.
Vendo nosso amigo prostrado junto a sua querida, ele sacou a faca, a qual havia mencionado antes, e arremeteu-se para cima de Dylan.

Quase pego de surpresa, Dylan no último momento conseguiu esquivar e agarrou-se ao Careca. Agarrados, começou uma briga de forças, onde o Careca tentava furar Dylan com a faca e, por conseguinte, Dylan tentava impedi-lo. A briga não deve ter durado nem 2 minutos, pois Dylan pisou no sangue derramado do Careca que estava espalhado pelo chão. Conhecendo o azar do nosso amigo, vocês já podem imaginar o que aconteceu. Claro que ele escorregou. E levou consigo ao chão o Careca.

- Urhg! – foi o único som ouvido além do som produzido pelo baque dos dois. Ambos ficaram imóveis. Mas por pouco tempo, porque um deles logo começou a se levantar. É amigos, vocês devem estar se perguntando quem será que foi o vitorioso nessa luta, o sobrevivente. Provavelmente, diante de toda a ineficácia já apresentada por Dylan, dificilmente seria ele, mas sim, Dylan resistiu. Ao caírem, a lâmina da faca estava virada apontando direto para o coração do infeliz do Careca.

Talvez, a única explicação possível seja o Careca ser mais azarado e mais inútil que Dylan, o que não é impossível, afinal, aquele era um cinema freqüentado por fracassados, como eu já afirmei.
A loira vendo-se segura, com sua agressor morto, arranja forças para levantar-se. Prostra-se em pé e vai ao encontro do seu salvador que também começara a se levantar.

Pois é, amigos, Dylan, aquele por quem nem eu nem ninguém daríamos um vintém furado fora o herói da noite, matara o bandido e salvara a mocinha. Teria ele agora o beijo apaixonado geralmente recebido pelos heróis no cinema? Ao que parece sim, pois ela vinha em sua direção com um sorriso ao mesmo tempo de alívio e de admiração no rosto. E enquanto na tela grande a mocinha se dirigia para beijar o herói, na vida real o fato era reproduzido.

O beijo era iminente quando Dylan escorregou no sangue que ainda se acumulava no chão. Escorregou e caiu no chão. Escorregou, caiu no chão e dali não levantou-se mais. Sim amigos, esse é Dylan, o azarado. E vocês devem estar revoltados comigo, mas é como eu disse “A hora só é a hora quando eu quiser”.