30 de abr de 2010

[Conto] Garoto


Um garoto aparentando seus 10 anos corre pelo chão de terra batida que chamam de rua, indo em direção ao centro da cidade. No meio do caminho, vários outros meninos de idades aparentemente próximas a dele vão se juntando a corrida. A corrida é igual a tantas outras que diariamente eles dão juntos.

Conversa fiada, disputas eternas pra saber quem realmente ganhou aquele campeonato de pião que eles realizaram certa vez e até hoje gera confusão, a nova vizinha que chegara à cidade há poucos dias, mas já conseguira conquistar o coração de todos e gerar inveja entre a criançada graças a um sorrisinho dado ao garoto, futebol e outras dezenas de assuntos de meninos que vinham à tona diariamente.

As corridas para o centro da cidade nunca tinham um destino específico, em geral a diversão era a ida, a confraternização daquela dezena de meninos que, apesar de não terem uma condição financeira muito boa, eram ingenuamente felizes por não ter que se preocupar com isso ainda. A conversa, as brincadeiras, tudo isso bastava pra fazer o dia deles perfeito.

Naquela manhã ao chegarem à praça uma coisa específica chamou a atenção do garoto. Não exatamente na praça, mas no prédio que ficava do outro lado dela. Um cartaz. O cartaz do filme que estrearia naquele dia numa das duas salas do cinema da cidade. O título foi algo que a memória do nosso garoto não conseguiu guardar, porque todo o espaço da memória dele naquele dia serviu para guardar a imagem daquela linda mulher que aparecia reluzente naquele pedaço de papel colado na parede. O cabelo loiro ondulado, aquela boca carnuda vermelha, o olhar misterioso, o vestido branco com as alças cruzadas que destacavam os seus seios, tudo isso ficou registrado na memória do garoto e ainda hoje, se ele fechar os olhos, ele é capaz de lembras de cada detalhe daquela que foi a mulher mais linda que ele viu na sua vida.

Foi paixão à primeira vista, paixão platônica por aquela dama que aparecia linda e insinuante naquele pedaço de papel. Ver o filme não era uma escolha e sim uma obrigação, um dever cívico. Não pelo filme em si, como já deve ter ficado óbvio, mas para ver toda aquela beleza em movimento, espalhando seu charme pela tela grande do cinema. Mas como ver sem dinheiro? Ir ao cinema não era um entretenimento de todo caro, mas era algo que ele não poderia dar-se ao luxo de fazer. Procurou inutilmente por alguma moeda que pudesse ajudar nos bolsos, mas de lá nada saiu a não ser um botão, e seu precioso pião.

O dia de brincadeiras do garoto acabou ali. Ele agora tinha um objetivo, conseguir o dinheiro pra ver a sua amada – sim amada, porque ele sabia que no dia que os dois se encontrassem, porque esse dia um dia aconteceria, ela teria os mesmos sentimentos que ele tinha por ela.

A primeira idéia que veio a sua mente foi pedir dinheiro pros pais. Mas pedir dinheiro pra eles significava ter que explicar a serventia do dinheiro e jamais ele seria dado caso o destino fosse o cinema, coisa que seu pai achava inútil e sem sentido. Pra que se preocupar com a vida de alguém que nem existe? Era essa a resposta-pergunta que ele dava sempre que era inquirido sobre o porquê de não gostar e de nunca ter visto um filme no cinema. Outra opção era mentir, mas essa estava fora de questão, porque ele podia ser pobre, querer muito ver o filme, mas tinha sido bem criado e sabia que mentira tinha perna curta e sabia que a chinela do seu pai não ia pensar duas vezes antes de esquentar seu traseiro quando ele descobrisse a mentira.

O jeito então era trabalhar. Mas trabalhar com o quê?

A brincadeira com os outros meninos foi deixada pra depois. Não sem a incompreensão dos demais que o questionavam do porquê de ir embora sendo que tinham acabado de chegar.

“Crianças!” pensou nosso garoto. “Tenho mais com o que me preocupar do que com pião e bola de gude. Minha dama me espera!” completou o pensamento.

Enquanto corria pensava onde poderia arranjar o dinheiro. Engraxate, talvez? Não, seu pai não o deixaria usar a graxa. Pedir esmola? Jamais, teria as mesmas conseqüências de mentir. Carregar compras? Era uma alternativa, quem sabe as freguesas da venda não davam uns trocados por ele ajudar a levar as sacolas até em casa. Dobrou a direita e lá estava a venda. O movimento não estava muito bom no momento. Havia apenas dois fregueses. Um senhor nos seus 40 e poucos anos e uma senhora na casa dos 30. Eram poucas opções, mas foram suficientes.

Oferecida a ajuda, a senhora de pronto aceitou muito agradecida, dizendo que era raro ver crianças tão prestativas quanto o garoto naqueles tempos. O trajeto até a casa da senhora não era longo e as sacolas eram poucas, apenas duas e mesmo assim com apenas alguns vegetais e algumas frutas. Não conversaram muito, apenas algumas trocas de palavras onde o tema principal era a curiosidade dela sobre a história do garoto. De quem era filho, quantos anos tinha, essas coisas.

O trajeto logo acabou, o garoto colocou as compras na cozinha da senhora e esperou. Ela o conduziu até a porta da frente, agradeceu pela ajuda, se despediu e entrou. Ele ficou na porta da frente por um momento esperando pelo trocado pela ajuda que viria, mas logo se deu conta de que a espera seria a toa e foi embora, cabisbaixo, já pensando no que poderia fazer agora pra conseguir o dinheiro.

Não tinha andado nem uns vinte metros e ouviu alguém gritando. “Garoto!”. Virou e viu uma menina correndo em sua direção. Era a menina nova que lhe dera o sorrisinho que tanta inveja despertara nos seus amigos. Ela realmente era bonita e parecia gostar dele, porque se antes fora um sorrisinho agora era um sorriso completo com todos os dentes a mostra. Mas ela continuava sendo apenas uma menina, e ele já tinha a sua mulher, a mais linda e charmosa de todos por sinal e que estava a sua espera ali perto no cinema.

“Minha mãe pediu pra te entregar isso.”, estendeu a mão e deixou cair na mão espalmada do garoto algumas moedas. Uma olhadela rápida indicava o que ele tanto queria, as moedas somavam quantia suficiente pra pagar a entrada do cinema.

Ele só conseguiu dizer obrigado antes de dar as costas pra menina que triste lá ficou olhando aquele menino que tinha despertado sua atenção sair correndo para se encontrar com a outra. A corrida de volta a praça foi só alegria. Seu coração batia forte no seu peito diante da perspectiva de ver sua amada. Mas ao chegar à praça um sentimento ruim abateu-se sobre seu peito. Uma pequena multidão se aglomerava diante do cinema. Vencida a praça que o separava da confusão foi se misturando à muvuca tentando descobrir o motivo da aglomeração.

“Isso é um desrespeito!”, “Onde já se viu uma coisa dessas!”, “Depois de todo o mal que aquele causou, isso!”, “Eu esperava mais dele!”, “Nunca imaginei que ele fosse desses, mas o que podia se esperar dele? Ele é da terra daquele lá!”. As frases entravam na cabeça do garoto, mas não faziam sentido. De quem eles estavam falando? Quem era aquele lá? Mas isso não era importante. Confusão a parte a única coisa que ele queria era ver sua amada. Porém, um braço achava o contrário.

“Onde você acha que vai garoto? Ninguém vai entrar nesse cinema enquanto ele estiver passando aquele desaforo”, o braço falou e apontou para o outro cartaz que estava colado ao lado do dela. Um cartaz que diante da beleza do dela passara despercebido por ele mais cedo. O cartaz era simples, apenas um homem, uma mulher e outro homem usando um chapéu de couro com umas estrelas na cabeça. Não parecia ao garoto algo que pudesse provocar aquele alvoroço todo e impedi-lo de ver o filme. Mas ao que parece ele era capaz sim, porque a confusão perdurou e depois de esperar por horas sem fio veio a frustração e a decepção. E com a decepção ela já não parecia mais tão bela.

Os outros meninos cansados de assistir o desenrolar da confusão tinham voltado a brincar e o garoto logo se juntou a eles e foi recebido como se nunca tivesse saído. Brincaram o dia todo e até compraram umas balas com o dinheiro que o garoto tinha conseguido e que agora não tinham mais serventia diante da situação que ainda continuava no cinema. O resto do dia passou como todos os outros e terminou como todos os anteriores também, com cada um seguindo o caminho de sua casa. O único que não foi logo foi o garoto que resolveu dar uma última olhada na única mulher que ele tinha realmente amado e a que, agora que ele a havia decepcionado, provavelmente não queria mais nada com ele.

Parou em frente ao cartaz dela e a admirou por um longo tempo. O outro cartaz havia sido arrancado. Pelo visto a turba tinha vencido. Uma lágrima desceu pelo rosto do garoto no mesmo momento que uma mão tocou no seu ombro. Era o dono do cinema que ao seu lado com a mão no seu ombro também fitava o cartaz.

“Linda, não acha? Uma pena não ter podido mostrar às pessoas dessa cidade a mulher mais linda do mundo, por causa de um simples filme. Uma pena. Ao que parece só você conseguiu enxergar a beleza dela ao invés da feiúra dele. Venha vê-la amanhã, não precisa pagar. O mundo precisa de mais garotos que vejam a beleza ao invés da feiúra das coisas.”, disse o dono do cinema, deu uma tapinha no ombro do garoto e entrou.

Um sorriso foi surgindo no rosto do garoto. Um misto de incredulidade e de orgulho. Ele sorriu, olhou mais uma vez pra mulher mais linda que ele já tinha visto e correu. Correu sabendo que sua amada estaria orgulhosa dele e que, o melhor de tudo, no dia seguinte ele finalmente iria conhecê-la pessoalmente. E correu.